Esses ingleses nº 1: O Amante, de Pinter

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Peça de Harold Pinter tem direção de Francisco MedeirosBem longe das esquisitices praticadas por alguns setores do teatro alternativo, esperando, talvez, terem em troca a glória eterna dos seus pares, este movimentado 2010 tem possibilitado um enriquecedor contato com textos ingleses contemporâneos.

Sempre se soube que um bom texto é a garantia de, pelo menos, 50% do êxito artístico de uma montagem teatral. E, nesse nicho, os ingleses são infalivelmente eficientes, quando não brilhantes (Bernard Shaw, Oscar Wilde, Harold Pinter, John Osborne, Mike Leigh…).

Daniel Alvim e Paula Bulamarqui em "O Amante"

Mas, às vezes, eles são uma armadilha para encenadores destas bandas. O próprio Antunes Filho, nosso encenador maior, admite que o seu Shakespeare, Júlio Cesar, (década de 1970), com o empenho criativo de sempre, veio para saciar de vez a sua sede de tragédias do bardo inglês, diferentemente das comédias.

Porém, se o diretor for um criador criterioso, que parte de uma total cumplicidade com as idéias do autor, acima de maneirismos estéticos espúrios (Macbeth, de Aderbal Freire Filho, por exemplo), esses outros 50% garantirão o bom termo da empreitada.

Por aqui não vemos ninguém mais apropriado para dialogar com os propósitos dramatúrgicos bretões, que o já veterano e tão inquieto quanto de criteriosa criatividade Francisco (Chiquinho) Medeiros. Seu O Amante, cartaz do Teatro Nair Bello, atrai pela coragem de caminhar lado a lado com um Pinter nunca menos que desconcertante.

O Amante ocupa-se de um casal da classe média inglesa que vive um cotidiano de fantasias eróticas envolvendo terceiros. Tudo com aparente aceitação. Sem grandes lances, dentro de um ritmo ora nervoso, ora pontuado por marcantes silêncios, a direção consegue extrair a pungência da terrível armadilha forjada pelo próprio casal para sobreviver a dois. Já não há opção fora do jogo a que se propuseram: o inferno, aqui, não são os outros, como filosofava Sartre. Somos nós mesmos, prisioneiros das nossas almas inconseqüentes.

Daniel Alvim faz com Paula Burlamaqui uma dupla bem entrosada, com química para tocar o espectador no final. Não são ainda atores consumados, mas, bastante conscientes dos desafios da protagonização. Jogam em cena com talento e charme.

Não se pode dizer – como já lemos na imprensa – que Francisco Medeiros fraquejou ou errou com este Pinter.  É questão de caminharmos junto com as idéias do autor acumpliciadas pela direção.

Vale ver !!

“No prelo”: Esses Ingleses nº 2 (Dueto Para um)  e Esses Ingleses nº 3 (Os Penetras).

Serviço:

O AMANTE/ Teatro Nair Bello / Shopping Frei Caneca, 3. Piso/ Rua Frei Caneca, 569, Consolação/ fone 3472-2414/5ª. e sábado 2lh, 6ª. 2lh30, domingo l9h/ R$ 30, (quinta e sexta) e R$ 40, demais sessões. / 16 anos / até 26 de setembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.