Esther Góes dirige texto de Harold Pinter

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Elenco de "A Coleção", de Harold Pinter

Depois de ser dirigida pelo filho, a atriz desta vez assina a direção da primeira montagem paulistana de A Coleção, em que Ariel Borghi contracena com Amazyles de Almeida, Marcos Suchara e Marcelo Szpektor. Dois casais do mundo da moda se relacionam de maneira nada amistosa e o público é convidado a desvendar os mistérios da trama

SÃO PAULO – O instigante texto de Harold Pinter, A Coleção, em cartaz no Teatro Grande Otelo, é encenado, pela primeira vez na capital paulista, pelas mãos da atriz Esther Góes. O enredo se passa na década de 1960 e mostra a relação recheada de atritos e mistérios entre dois casais, que moram no mesmo bairro. De um lado estão James e Stella (vividos por Ariel e Amazyles) que são donos de uma bem-sucedida grife e, de outro, o aristocrata Harry (Suchara) que vive com Bill (Szpektor), um estilista dez anos mais novo.

Para mostrarem suas novas coleções, Stella e Bill participam, numa cidade vizinha, de uma feira de moda e se conhecem no hotel. O que acontece entre eles é o mote de toda a peça: Pinter faz o jogo de mostra e esconde e a plateia precisa ir montando o quebra-cabeça, tanto do que ocorreu entre os dois estilistas durante o evento de moda como da relação que se estabelece entre os quatro personagens.
O cenário é dividido em duas partes, de um lado o sofisticado apartamento de James e Stella e de outro o sobrado dos rapazes. Entre os dois ambientes uma cabine telefônica, que funciona quase como outro personagem, já que é por meio dela que há a comunicação entre os casais. Lembre-se: na época não existia aparelho de telefonia móvel, os corriqueiros celulares de hoje.

"A Coleção" - Amazyles de Almeida e Ariel Borghi - foto de ArnaldoTorres

O texto de Harold Pinter a princípio parece naturalista e factual, mas à medida que as cenas se desenrolam, os mistérios surgem e as dúvidas não só permeiam as cabeças e corações dos prováveis cônjuges traídos como de toda a plateia.

Stella e Bill tiveram um tórrido caso amoroso ou tudo não passou de mero encontro entre dois profissionais da área? James procura Bill com a intenção de evidenciar sua ira pela traição da esposa ou também sente-se atraído pelo charmoso estilista? E Harry sofre pela traição do amado ou se aproxima de Stella por ter ficado encantado com a beleza da jovem?

Para a diretora, em A Coleção o autor “explora o absurdo para refletir a realidade. Não lhe interessa teorizar, mas colocar em cena a verdade do ser humano, sem retoques. Ele não propõe soluções, mas investiga às claras. E este texto, Pinter expressa a complexidade do mundo atual e encoraja o espectador a ir além, para encontrar a realidade que inclui o lado desconhecido da nossa natureza e nos surpreende com outra imagem, de nós mesmos e dos outros, inesperadamente”, analisa Esther Góes.

O espetáculo acaba de estrear e permanece em cartaz até meados de junho no Teatro Grande Otelo, este sim merece minha crítica. Louvável que o Liceu Coração de Jesus tenha aberto seu teatro para a cidade, no entanto a sala não recebeu as devidas adaptações para receber o grande público. As cadeiras da plateia ficam no mesmo plano e o palco não é tão alto: assim a chance da pessoa não conseguir enxergar tudo o que se passa no palco é muito grande. Lamentável para um teatro que acaba de ser entregue à população!

Roteiro:
A Coleção
. Texto: Harold Pinter. Tradução: Flávio Rangel. Direção: Esther Góes. Elenco: Ariel Borghi, Amazyles de Almeida, Marcos Suchara e Marcelo Szpektor. Figurino: Beth Filipecki. Cenário: Cristina Novaes. Iluminação: Mauro Martorelli. Trilha sonora: Aline Meyer. Coreografia de lutas cênicas: Dani Hu. Fotografia: Arnaldo Torres. Realização: Ensaio Geral Produções

Serviço:
Teatro Grande Otelo (214 lugares), Alameda Nothmann, 233, Tel. 3221-9878. Sexta e sábado às 21h e domingo às 20h. Ingressos: R$ 60,00 (meia: R$ 30,00). Bilheteria: 3ª a 6ª (16h às 19h), sáb. e dom. (14h até início da sessão). Acesso universal. Ar Condicionado.  Aceita dinheiro e todos os cartões. Ingressos antecipados: www.ingressorapido.com.br (4003-1212). Estacionamento no local: R$15,00. Temporada: Até 17 de junho de 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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