Excesso de varetas

TextoLivre de Saulo Krieger (saulo@aplausobrasil.com)

TEXTOLIVRE É O NOME DA SESSÃO DO APLAUSO BRASIL QUE TRAZ TEXTOS DE FICÇÃO.

Baseado em fatos reais. Aconteceu tudo:

 

gravido3É MENINO, DOUTOR? A SUA NAMORADA É. KKKKK Dá-lhe Bruna… Camila! kkk

 

Àquela manhã, na redação de um famoso jornal de província…

 

Então, Dona Kalcinéri… Realmente gostamos muito do seu currículo…

 Foi pra São Paulo aos 17 anos fugida de casa, pagou com seu corpitcho os taxistas daqui até lá, onde “lá chegando” fez muitos cursos…

 

— Sim… De massagem e de espiritismo, passando por metempsicose… Bom, nada demais… As pessoas aqui ficavam impressionadas “Kalcinéri… Hum, poderosa… Fazendo curso de espiritismo em São Paulo? Não mexe com ela! Perigosa!”

 — Trabalhou como modelo, tendo sido agenciada por uma agência com sede no Largo 13, uma tal de…

 — Fod’s Model…

 — Sim, Fod’s… E veja só… Até estrelou um filme!

 — Oh, Rebucerteiro!

 — Isso me parece nome… de pornochanchada…

 — Que que é isso, Sr. Valfredo… Eu sou uma mulher direeeeita!

 — Em absoluto, Dona Kalcinéri…

 

— Absoluto “sim” ou absoluto “não”?

 — Simplesmente absoluto! O que disso passar vem do maligno.

 

— Ah, bom…

 

— Jogou búzios no Viaduto do Chá, dançou em boate…

 

— Numa só: Luzes de Miami… Eu tava dura, sabe?

 

— Se inscreveu no Big Brother e não passou porque tinha mutreta… Acredito, tudo muito relevante… Enfim, a senhora só fez coisa boa… Dignificante… Acho que é a pessoa certa para esse trabalho!

 

— Sim, sim, seu Valfredo… Me passa logo o que eu tenho de fazer, porque eu tô aqui perdendo o meu tempo…

 

Kalcinéri saca a lixa de unha…

 

— Dona Kalcinéri, a senhora tem carro?

 

— Mas é claro… Por enquanto tenho um Voyage de segunda mão… Mas depois que eu ganhar a grana por uma chantagem que eu tô fazendo com uma franchona rica lá de São Paulo, acho que, sei lá… Vou comprar um rollis royce, ou uma daquelas limusine…

 

— Dona Kalcinéri, eu tenho uma notícia muito boa para a senhora averigüar… Lá no sul do estado… Do seu estado… Santa Catarina… Mas a rapariga veio do Rio Grande…

  — É sempre assim! Quem matou quem?

 

— Calma…

 

— Teve linxamento?

 

— Controle seus instintos, Dona Kalcinéri! O caso é seu… Ah, e não quero palavras de baixo calão no meu jornal, hem? Isto aqui é de família!

  “Em Cocal do Sul, sul do estado, traveco tem gravidez psicológica e engana até a si próprio:

Para a surpresa dos investigadores e mais ainda da família que abriu as portas para a Bruna, a moça era um homem, está com 19 anos e é natural de Gravatal. O susto foi tão grande que o companheiro teve de ser internado às pressas no hospital do município: ele teve um mal súbito com a notícia de que a mulher era marido e tinha aquele algo a mais que todo homem tem. Com tanto engodo nessa história, com tanto angu nesse caroço, vai saber se ela não tinha envaretado o jovem sem saber.

O jovem não entendeu nada porque o casal mantinha relações sexuais e ele não havia percebido que a moça tinha órgão masculino.

 

“O rapaz contou que sempre que se relacionavam, ela apagava a luz, comandava as ações e exigia que o sexo fosse feito à moda antiga, isto é, por um buraquinho no lençol”.

 

Não, fora os buracos, buracos que todo mundo tem, para entrar, para sair, para ambos, ele… Não, não conhecia a anatomia feminina. E ela não o deixava conhecer.

 

Hum… Poderosa, ela!

 Casta e pudica, em todos esses meses não permitiu que o companheiro tocasse as suas partes íntimas e, por isso, ele não percebeu que ela tinha o mesmo que ele, explica o policial.la acreditava tanto que estava grávida, que o corpo passou a desenvolver a barriga. E tinha um feto lá dentro chutando, chutando, dando porrada, “filho de dois machos é macho e meio, desde o ventre, sô! Não tem parte feminina como qualquer comum mortal…”

Já sobre a gravidez de Bruna, era apenas uma reação psicológica. Apenas? “Apenas” meu cu, diria ela, pois gravidez psicológica pra homem, homem que tem peru e tudo não é bolinho, não.

E

 

“O travesti aparentemente era uma mulher, enganava bem e fora o gogó e os pés, um tanto grandes, grosseiros, não tinha traços masculinos”, acrescenta Evandro.Como prêmio por sua atuação pra lá de involuntária, Bruna já de cara transcendeu a condição de traveco, furou a fila da mudança de sexo, deixando um monte de Camila pra trás.

 

 

Tem uma tal de Jéssica, o nome “de verdade” era Thiago com “Th”, bem, são águas passadas. A verdade é que ela não se conforma: “porque eu sou mulher… Eu sempre me senti feminina”.

Tá? Tu teve barriga de quantos meses? Sem útero nem nada, de quantos meses? Fique sabendo que essa cirurgia é que nem empréstimo de agiota: se o cara realmente não tem nem tem como ter, não faz. Então a Bruna passou na tua frente. Ela já é mulher, já engana até marido otário, engana a si, engana à sogra, engana ao pobre, engana ao sacristão, a tal cirurgia será mera formalidade. Tá boa? Mulher e caso encerrado: fez por merecer. 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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