EXCLUSIVO: “O TEATRO ME LIBERTA DOS CERCOS E BARREIRAS EXTERIORES”, DIZ ENCENADOR PALESTINO QUE VEM À MITSP

 

Ihab Zahdeh vem para a MITsp fazer uma residência criativa na Mostra. Foto: divulgação.

Maria Fernanda Vomero*, especial para o Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com.br) 

SÃO PAULO – O ator e encenador palestino Ihab Zahdeh, de 39 anos, é fundador e diretor artístico do Yes Theatre, em Hebron, ao sul dos territórios ocupados palestinos, onde realiza diversos trabalhos de direção, atuação e dramaturgia. Participou de vários workshops, cursos e turnês no exterior, com destaque para a apresentação de Ricardo II no Festival Globe to Globe, no Shakespeare Theatre de Londres (2012), na qual interpretou Mowbray. É diretor e um dos atores da peça 3in1, que acaba de encerrar uma curta temporada em Hanover, Alemanha. Em 2016, passou alguns meses no Japão, como convidado do Tokyo Engeki Ensemble, experiência que resultou na montagem do espetáculo Mirror. Zahdeh conduzirá, de 2 a 21 de março, uma residência artística para brasileiros durante a 4ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que está com inscrições abertas, e participará de uma roda de conversa sobre Teatro na Palestina: relações entre política e arte. Ambas atividades ocorrerão no TUSP.

Serão selecionados 12 artistas para participar do processo com Ihab. Foto: divulgação

Quais são os desafios de fazer teatro na Palestina nos dias de hoje?

Existem muitos desafios e obstáculos que o teatro palestino enfrenta: a ausência de órgãos oficiais que apoiem a produção teatral e a situação político-econômica instável que desvia o interesse das pessoas no teatro são alguns deles. O currículo educacional palestino não inclui nada de teatro, pressionando o meio teatral a trabalhar permanentemente a fim de atrair audiência. Além disso, a fragmentação do território palestino, reforçada pelas restrições de mobilidade, torna difícil a circulação das produções entre as cidades. Essas restrições, causadas pela existência de checkpoints entre as localidades, têm gerado discrepâncias na mentalidade palestina… Isso impacta negativamente a visão sobre o teatro. Outro grande desafio é a dependência de doações internacionais. Apesar de tudo isso, o teatro palestino está ativo e tem se aperfeiçoado como gênero em comparação às experiências no mundo árabe em geral.

O teatro pode ser um modo de resistência?

Ao revelar artisticamente diferentes questões de uma sociedade, o teatro estimula a imaginação das pessoas e as provoca a agir, a encontrar soluções. Além disso, o teatro pode ser um instrumento de resistência por gerar um discurso e criar, de forma criativa, discussões que se dirigem a qualquer indivíduo.

Você acha que os artistas têm uma responsabilidade social?

Sim, o artista tem uma responsabilidade significativa, já que ele pode ver aquilo que os outros não conseguem. Pode lidar com diferentes questões da sociedade sem hesitação. Porém, precisa ser livre em seu pensamento e em seus princípios. Deve ser um elemento de resistência, aquele capaz de conduzir à mudança. Um verdadeiro artista não deveria se isolar ou se afastar do cotidiano de sua comunidade – essa proximidade é importante para que ele compreenda as situações de sofrimento pelas quais passam as pessoas a seu redor.

O que o teatro representa para você?

É um espaço privilegiado e especial no qual posso voar. Nele tenho liberdade e segurança para traduzir meus pensamentos e expressar meus sentimentos sem barreiras entre mim e os outros. É onde invisto minha alma, minha energia e minhas reflexões em relação a temas tão humanos. Esse lugar me liberta dos cercos e barreiras exteriores. Sempre busco algo completamente novo em cada produção e continuo a procurar por algo diferente nas seguintes.

Sobre Ihab Zahdeh

  • Ator e diretor palestino.
  • Cofundador do Yes Theatre, em Hebron (sul da Palestina), do qual atualmente é diretor artístico.
  • Participação no Globe to Globe Festival com a peça Richard II, no Shakespeare Theatre, Londres, em 2012, como ator.
  • Trajetória internacional, com destaque para os vários tours com a peça 3 in 1, na qual atua;
  • Ampla experiência como encenador, dirigindo profissionais, estudantes e crianças.
  • Trabalho no Japão em 2016, que resultou na montagem de Mirror com o Tokyo Engeki Ensemble (TEE)

 

* Maria Fernanda Vomero é jornalista, pesquisadora em Artes Cênicas e curadora das atividades pedagógicas da MITsp.

 

Serviço: Informações sobre a residência artística e critérios de seleção no http://mitsp.org/2017/acoes-pedagogicas/

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!