Fernando Pessoa: os 132 anos do poeta do isolamento

Fernando Pessoa, poeta português.

EM REDE – No dia 13 de Junho de  1.888 nascia Fernando António Nogueira Pessoa . A família orgulhava-se de uma possível descendência com Fernando de Bulhões, o Santo Antônio dos Católicos. Fernando Pessoa não se tornou santo como seu possível ancestral. Mas com certeza se tornou o padroeiro de inúmeros afilhados sonhadores e sensíveis que encontraram no escrever ou no ouvir poesias sua verdadeira religião.

 Afinal, Fernando Pessoa afirmou em texto, sua amizade com o Menino Jesus que havia fugido do céu para se tornar outra vez humano, enganando Deus e o Espírito Santo. Aos sete anos o poeta já mostrava ao mundo a sua verdadeira missão:  escrever. Com a morte do pai, Joaquim de Seabra Pessoa, em 1.893 a mãe Madalena, casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Tendo que dividir a atenção da mãe com os filhos do novo casamento e com o padrasto, Pessoa isola-se o que lhe propiciou momentos de intensa reflexão.

Tendo recebido educação britânica, obteve um profundo contato com a língua inglesa e com autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats e outros. Em 1.907 com a morte da avó, recebe uma pequena herança e monta uma gráfica, dando origem aos seus primeiros impressos. Trabalhou praticamente a vida toda com tradução de correspondência comercial, crítica literária e dramática.

Mas foi na poesia que Fernando Pessoa dedicaria a maior parte do seu tempo e da sua vida e o seu maior legado para a humanidade. Discreto, trabalhador comum aos olhos da sua geração, manteve quase um diário, por todo o tempo, freqüentando restaurantes baratos e escritor por decisão.  Sua poesia revela um mundo extremamente sensível e inquietante.

Poeta que se contentou com uma vida sem brilho e sem misérias espetaculares. Preferiu uma vida secreta e sem importância aos olhos mortais, mas cheia de sentidos transformadores através de suas palavras. Durante sua solidão voluntária em seu quarto alugado em um bairro qualquer da cidade, Fernando Pessoa criou outros poetas, outras identidades, heterônimos, com quem dividia textos e idéias. Criou seu primeiro heterônimo aos seis anos de idade:  Chevalier de Pas.

A heteronímia talvez o tenha ajudado a tornar possível e suportável o afastamento do mundo. Na ausência de pessoas reais, Pessoa criou seu amigos poetas, imaginários, cúmplices de seu mundo abstrato. Alguns dos mais famosos :  Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Bernado Soares. Conheça, em trecho, um pouco das personalidades criadas por Pessoa:

 

O Eu  profundo  e  os  outros  Eus

“ Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje,
que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos,
ou quando menos, os seus companheiros de espírito? ” 
( Fernando Pessoa )

 

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, Portugal, no ano 1890. A data do seu falecimento não é conhecida. Formado em Engenharia na Escócia, não exerceu a profissão. Álvaro de Campos valoriza a modernidade e é um pessimista, pois apesar do gosto pelo progresso, o tempo presente o angustia. Seu estilo pode ser definido em três fases: decadentista, progressista e pessimista.

“Abram-me todas as janelas!

Arranquem-me todas as portas!

Puxem a casa toda para cima de mim!

Quero viver em liberdade no ar,

Quero ter gestos fora do meu corpo,

Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,

Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,

Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,

Com uma voluptuosidade que já está longe de mim ! “

 

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto, não sendo conhecida a data da sua morte.

Estudou Medicina e, antes, em colégio de jesuítas. Foi viver no Brasil em 1919, após a instauração da república em Portugal (1910), porque era monarquista.

Tal como Caeiro valoriza a simplicidade, Ricardo Reis gosta do que é simples, mas num sentido de oposição ao que é moderno. Tradicional, para ele, a modernidade é uma mostra de decadência. Sua linguagem é clássica e seu vocabulário, erudito.

 

“Para ser grande, sê inteiro: nada, teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive “

 

 

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro (1889-1915) nasceu em Lisboa. É o mestre dos heterônimos, tendo como discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Passou a sua vida no campo e ficou órfão de pai e mãe muito cedo, passando a viver com uma tia avó. Morreu de tuberculose. Apesar da data indicada para o seu falecimento, há registro de poemas de Alberto Caeiro do ano 1919. Caeiro valoriza a simplicidade e demonstra o seu gosto pela natureza. Para ele, mais importante do que pensar é sentir, delegando todo o conhecimento à experiência sensorial. A linguagem da sua poesia é simples, afinal, Caeiro não estudou além da escola primária.

 

“Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor,. Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela… ” .

 

Bernardo de Campos 

É considerado um semi-heterônimo de Pessoa. Isso porque essa personalidade apresenta características muito semelhantes às de Fernando Pessoa, sendo muitas vezes confundido com o próprio escritor. Bernando de Campos  á autor  de  O Livro do Desassossego é uma das maiores obras de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa morre no dia 30 de Novembro de 1.935, aos 47 anos. No dia anterior tinha escrito sua última frase em inglês :  “I know not what tomorrow will bring” (“Não sei o que o amanhã trará”)

Homenagem de atores pelo Yotube.

Respeitando o isolamento social, atores e atrizes homenageiam os 132 anos de Fernando Pessoa com o vídeo Pessoas em Casa. Uma forma de trazer um pouco de poesia do universo pessoniano em época de carência de boas notícias. Assista: https://www.youtube.com/watch?v=dhqbohBPv9g

 

Silvio Tadeu, especialmente para o Aplauso Brasil. Silvio é jornalista, dramaturgo, diretor e produtor de teatro. Escreve no www.silviotadeu.blogspot.com.br

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