FTC: Peça provocadora causa debandada do público curitibano

Michel Fernandes*, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com.br)

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Cena de O Médico e O Monstro

CURITIBA – A primeira sessão da comédia O Médico e o Monstro, de George Osterman, protagonizou um fenômeno interessantíssimo. Sabendo ou não que a peça era uma paródia do clássico homônimo de Robert L. Stevenson, o que provocou a debandada do público do Teatro da Reitoria foi a inversão moral que o espetáculo propõe, o desconforto latente aos politicamente corretos.

Charles Ludlam (O Mistério de Irma Vap),fundador,ao lado de Osterman, da Ridiculous Company Theater, coloca em manifesto da companhia que “o paradoxo moral é o cerne do drama” do teatro do ridículo- manifestação norte-americana que chacoalhou o teatro da década de 1970 –  e, em tempos do “politicamente correto” o sem-cerimônia que norteia O Médico e o Monstro incomoda o vigente padrão moral.

Concordo que o público tenha direito de sair de um espetáculo que o desagrade, mais que uma crítica ao público que deixou a peça, antes é um convite que faço em forma de texto: até que ponto nossa nomeada tolerância é tão somente frágil máscara social desenhada pelo politicamente correto?

O Aplauso Brasil colheu opiniões do público, tanto daqueles que saíram no intervalo da peça, quanto dos que ficaram até o final, e as reações são matéria-prima para reflexões.

Leonardo, que trabalha no setor administrativo de uma construtora, achou “exagerada na parte sexual”. Ele não sabia sobre o que era a peça e considerou a peça “normal até começar a mexer com a religião” (precisamente no final do 1º ato em que um pastor evangélico tenta convencer Mr. Hyde a converter-se) e deixou o teatro no intervalo de O Médico e o Monstro.

A linguagem utilizada no espetáculo pode parecer estranha ou “diferente”, conforme a professora Anne considerou, mas vencido o choque com a diversidade escancarada pela peça, um pouco mais que a metade do público assistiu até o fim (o teatro estava lotado ao inicio da sessão).

Tanto Anne quanto o administrador Fabrício não gostaram da referencia a Marcos Feliciano na cena do pastor evangélico.

O jornalista Diego, que ganhou ingresso algumas horas antes da sessão, achou a peça “louca, curiosa, divertida. Com boas referências para o Brasil hoje. Mas eu esperava ser um pouco mais engraçado, eu achei um pouco forçado em alguns momentos. A parte sonora tava ruim, porque eu não gosto de som mecânico. Quando eles cantavam ao vivo não era legal. Dublado, a parte da Lilly, foi bacana, engraçado, dava para entender. As outras partes não davam para entender. Não gostei quando o público saiu no meio, achei um desrespeito completo e absurdo”.

E você, qual sua opinião a respeito?

*Michel Fernandes viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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