Gaiato, “Bixiga, um Musical” é pura festa de congraçamento

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Revista musical mostra universo do bairro paulistano Bela Vista, vulgo Bixiga

SÃO PAULO – É tanta gente boa junta na coxia, no palco e no poço da orquestra de “Bixiga, um Musical”, que o crítico nem acreditou estar vendo uma revista musical à brasileira, feita por pessoas nem nascidas na fase áurea do gênero. Tudo em clima de feira da Achiropita, aproximando cordialmente as três diferentes raças que se aglutinaram no diminuto espaço geográfico chamado de Bixiga, na verdade um apelido de parte do oficial bairro Bela Vista. Tentando definir: Bixiga é um estado de espírito dos boêmios, dos sambistas e dos bons de garfo!

Nenhum aspecto desse bairro escapou do nobre projeto idealizado por Mário Masetti, juntando aprendizes e profissionais experientes das diversas áreas de uma encenação teatral, numa troca de conhecimento através de oficinas e pesquisas, muitas pesquisas. A proposta foi prontamente assimilada, supomos, na alta esfera da Secretaria do Estado da Cultura, pelos sintonizados agitadores culturais, Andrea Matarazzo e André Sturm.

Mário Masetti é figura bissexta nos palcos paulistas, embora jamais longe das lides artísticas. Em 1975, já na sua estréia com “Porandubas Populares”, que tinha também muito a ver com o universo humilde, mas, muitas vezes, agressivo do Bixiga, Masetti foi premiado como revelação de diretor pela APCA. Desta vez ele buscou como co-diretor o não menos premiado Carlos Meceni. Ambos comandaram, habilmente, a heterogênea multidão (200 pessoas) de colaboradores, extraindo, como se vê (e se ouve) no palco, o melhor de cada um.

Assim, além do consciencioso trabalho do trio dramatúrgico; das ilustrativas e inspiradas letras e composições musicais; dos leves e estilizados casarões e cortiços recriados pela equipe cenográfica; da empolgada e empolgante coreografia de Paulo Goulart Filho (alçando-se ao pódio da função); das atentas a cores fortes figurinistas; do trabalho certeiro e lúdico do pessoal da iluminação, temos também a mais que eficiente Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, sob o comando de um bem humorado maestro Fábio Prado. Todos e tudo totalmente integrados ao espírito gaiato da narrativa, mantendo o público em perfeita comunhão com os atores/  dançarinos/ cantores/ musicistas.

Por último, mas, jamais menos importante: o elenco, que se irmana no bom resultado cômico e musical. Ficando mais nas figuras por nós conhecidas (e reconhecidas na permanente atuação coletiva) foi prazeroso acompanhar as impagáveis criações de Eduardo Silva, Wilma de Souza, Henrique Taubaté Lisboa (aproveitando cada palavra, cada vírgula das suas meteóricas passagens pela cena), Ju Colombo (destaque para os números de passarela), o “carcomano” esquentado de Ricardo Pettine , do  próprio Paulo Goulart Filho e, entre os mais novos, Martha Dias, com forte presença cênica e boa voz.

Uma última e necessária observação: nesta época em que o cafajestismo grassa nas “stand-ups comedy”, com o pior do humor que se faz na televisão e nas emissoras de rádio, Mário Masetti e Carlos Meceni provam que é possível ser hilariante com a ingenuidade e a malícia das piadas devidamente dosadas. O que poderia parecer impossível em tempos de mau gosto escancarado – para dizer o menos – desses piadistas que se alçam à condição de comediantes, o que vem a ser, decididamente, uma designação surrealista!

SERVIÇO :

BIXIGA, Um Musical na Contramão/Teatro Sérgio Cardoso /Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista /856 lugares / telefone 3288-0136 / 6ª. e sábado 2lh / domingo l9h / Ingressos : R$ 5,OO (6as) e R$ 20,00 /

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.