GENTE: MATHEUS NACHTERGAELE ESTREIA “PROCESSO DE CONSCERTO DO DESEJO” EM SP

SÃO PAULO – Processo de Conscerto do Desejo traz à luz os versos de Maria Cecília Nachtergaele, mãe de Matheus, que se matou quando o ator tinha apenas três meses. Repertório musical afetivo dá o tom do espetáculo, que circulou pelos mais importantes festivais de cultura do Brasil. Matheus foi indicado como Melhor Ator nos prêmios Cesgranrio e Shell em 2016.

Matheus Narchtergaele subiu ao palco do Teatro Poeirinha ao lado dos músicos Luã Belik (violão) e Henrique Rohrmann (violino) para as primeiras apresentações de Processo de Conscerto do Desejo, em novembro de 2015. Com capacidade para 60 pessoas, a experiência foi a de habitar um “pequeno útero” enquanto revelava aos espectadores quem foi Maria Cecília.

Não se trata de uma personagem ou mesmo de uma peça teatral. “É um recital à moda grega, é um lamento, mas é iluminado”, explica o ator, diretor e filho da poeta, que se matou aos 22 anos. À época, Matheus tinha apenas três meses de vida. Em Processo de Conscerto do Desejo os versos de Maria Cecília Nachtergaele são entremeados por canções que gostava de ouvir.

O espetáculo entra em cartaz no Teatro Raul Cortez, de 1º a 30 de abril, numa temporada definida pelo artista como “mais piafiana”, considerando o palco italiano e a acústica imponente do espaço.

“O tom mais íntimo dá lugar ao trágico, à catarse. Está ali o ator, o filho. Ele recita poesias da mãe suicida neste concerto. Isso é muito forte e muito sincero. Eu tinha receio que essa história só dissesse respeito a mim, entretanto as pessoas acabam se conectando com o sentido do viver”, conta.

Matheus lembra que demorou muitos anos para decidir o que fazer com o caderno de poesias da mãe que recebeu de presente do pai aos 16 anos.

“Era uma espécie de vespeiro emocional e esperei até sentir que não era mais tão perigoso, que as picadas haviam se cicatrizado”, diz. Os textos de Maria Cecília ganharam o palco antes mesmo da publicação em livro (em 2016, A Mariposa, de Maria Cecília Nachtergaele, foi lançada pela Polvilho Edições na FLIP).

“O teatro é lugar da cerimônia, é o meu lugar. Fiz o meu festejo fúnebre e a minha celebração como num ritual japonês colorido”, diz.

Cada sessão é uma experiência diferente neste trabalho em progresso com caminhos que plateias e amigos ajudam a definir.

“Na temporada do Poeirinha recebi aconselhamentos artísticos do Guel Arraes, do Cláudio Assis e do Jura Capela (todos cineastas) em relação a alguns detalhes como timbre da voz, o tom mais doce, o mais forte e até mesmo à dose de loucura”, revela.

Moldando o afeto, a dor, a beleza e tantos sentimentos, Processo de Conscerto do Desejo faz com que a presença de Maria Cecília seja transformadora e tocante.

“Não sou nada místico, mas é um pequeno milagre porque ela vive todas as noites, ao meu modo. É uma experiência que transformou o meu pesar e me mostrou a beleza de ser quem sou, apesar de não ter conhecido essa grande mãe. Faço esse espetáculo com uma imensa alegria”, conta.

Poucas palavras se confundem tanto em nossa língua quanto ‘concerto’ e ‘conserto’. Aqui, elas se mesclam vertiginosamente. A palavra desejo, em filosofia, seria a tensão em direção a um fim de onde se espera satisfação. Tradicionalmente o desejo pressupõe carência, ou alguma forma de indigência: Um ser que não carecesse de nada, não desejaria nada. Seria um ser perfeito, um Deus. Por isso a filosofia, tantas vezes, considera o desejo como característica primeira do ser imperfeito, do ser finito. Quero consertar meu desejo com poesia, num concerto. Explico: minha mãe, a poeta Maria Cecília Nachtergaele, faleceu quando eu era um bebê de três meses. Dela, me restaram seus poemas, lindos e maduros, escritos de uma jovem mulher moderna e triste, e essa veia que me marca a testa quando rio ou choro muito.

Em Processo de Conscerto do Desejo, acompanhado pelo jovem violonista Luã Belik e do violinista Henrique Rohrmann, direi finalmente os poemas que guardei nos olhos e na alma como única herança dela. O espetáculo é simples assim: Um homem (que por acaso é um ator) diz no palco as palavras escritas por sua mãe. Um violão (não por acaso, pois Maria Cecília amava os violões) o acompanha. É só isso, se isso for pouco.

Ficha Técnica

Concepção e atuação: Matheus Nachtergaele.
Textos: Maria Cecília Nachtergaele.
Violão: Luã Belik.
Violino: Henrique Rohrmann.
Design Som/Operação de Som: Andrea Zeni.
Iluminação: Orlando Schaider.
Contra regra/Camareira: Cedeli Martinusso.
Corpo: Natasha Mesquita.
Voz: Célio Rentroya.
Artes visuais: Cláudio Portugal e Karina Abicalil.
Mídia Sociais: Rodrigo Pires.
Direção de Produção: Miriam Juvino.
Produção Executiva: Valéria Luna.
Assessoria Jurídica: Lilian Santiago (Coarte) Produção Local / SP:
Ideias & Ideias Produções Artísticas.
Produção Executiva SP: João Federici / Josi Geller.
Assessoria de Comunicação: Arteplural.
Realização: Pássaro da Noite

Serviço

Processo de Conscerto do Desejo,
Teatro Raul Cortez. Endereço:
R. Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista. Telefone: (11) 3254 1631.
1º e 30 de abril. Sextas, às 21h30; sábados, às 21h e domingos, às 18h
Classificação: 16 anos
Duração: 60 minutos.
Ingressos (inteira): R$ 40 (sextas) e R$80 (sábados e domingos).
Venda de Ingressos: Pelo telefone (11) 2626-5282;
pelo site compreingressos.com e na bilheteria do teatro (de terça-feira a quinta-feira, das 14h às 20h. Sexta-feira a domingo, das 14h até o início do espetáculo).
Capacidade: 513 lugares