GOTA D’ÁGUA [A SECO] E A GRANDEZA NO MÍNIMO

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO – Versão redux de Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, parte do mínimo para expor a imensidão da tragédia de uma mulher que, abandonada pelo marido, arma o horror para aqueles que a traíram. O musical, adaptado e dirigido por Rafael Gomes, segue em cartaz no Teatro FAAP até 30 de outubro.

GOTA D'ÁGUA {À SECO}
GOTA D’ÁGUA {À SECO}

Existe um ditado que diz que Deus mora nos detalhes. Existe outra versão que diz que o diabo é quem mora. Independente de quem habita o quê, as duas versões apontam para o mesmo caminho: salvação ou danação dependem da atenção que você dá às pequenas coisas.

Da mesma forma, é interessante perceber como Gota D’Água [a seco], mesmo preso a algumas convenções grandiloquentes do teatro musical contemporâneo (como o final que flerta com o apoteótico) ganha força quando aposta nas sutilezas.

Inteligente, a montagem investe na dimensão “a seco” – ou seja, corta praticamente todos os personagens, algumas músicas e um bom tanto da duração original do texto de Paulo Pontes e Chico Buarque – para destacar a relação entre Joana (Laila Garin) e Jasão (Alejandro Claveux). Derivada do clássico de Eurípides, a peça narra a tragédia de uma mulher traída em todos os sentidos pelo companheiro de uma década, e pai de seus dois filhos.

GOTA D'ÁGUA {À SECO}
GOTA D’ÁGUA {À SECO}

Livre dos outros personagens e subtramas, o diretor e adaptador Rafael Gomes tem tempo e espaço de sobra para dar foco aos dois eixos centrais da trama, e investigar o produto que resta da separação litigiosa do casal. Estão presentes o ressentimento, a dor de corno, a inveja da felicidade alheia, a saudade do passado, o medo do futuro, o doce que gradativamente amarga na boca, a tristeza, a solidão, a fúria e o tesão.

Embora Gomes já potencializasse o sexo em sua montagem de Um Bonde Chamado Desejo, os desdobramentos da tensão sexual entre os personagens nesta versão de Gota D’Água parecem mais orgânicos e criativos, sobretudo no que toca a Jasão. Os méritos disso também vão para a interessante presença física de Claveux e para o figurino cuidadoso de Kika Lopes, que valoriza a virilha do personagem e deixa claro desde o início qual será a chave sob a qual ele operará.

São os detalhes como estes que mostram a esperteza da equipe criativa do espetáculo. Desde o figurino que destaca uma braguilha aberta, ou uma saia pesada e longa de uma personagem que não consegue se desvencilhar do que já se foi, passando pelo figurino de operários da banda – que sequer é visível por boa parte da ação – até a brincadeira com flores que viram arranjos de cabelos e oferendas mortuárias e cadeiras que se transformam em caixões, o diretor se mostra competente em ressignificar objetos e estabelecer um visual único para sua encenação.

Da mesma forma que ocorreu em Um Bonde, o espetáculo bem dirigido se torna poderoso por possuir intérpretes excepcionais. Se Gomes é feliz em criar uma estrutura criativa, é duplamente feliz por ter atores tão talentosos que dão vida ao todo. Claveux se sai bem com sua destreza corporal, com sua inocência hipócrita e, sobretudo, com sua habilidade em projetar sexualidade em Jasão. E Laila Garin se apresenta como a força gravitacional que mantém o todo coeso.

A atriz e cantora apodera-se de Joana com coragem e energia e entrega uma atuação intensa, sobretudo nas canções. O espetáculo atinge seus pontos altos quando Joana flui pelo canto de Garin, que mescla leveza, poesia, dor e força em sua voz. Canções importantes – e já cantadas por diversas outras intérpretes – como Pedaço de Mim e Bem-Querer ganham novo fôlego nesta montagem, e o monólogo em que Joana amaldiçoa Creonte e sua filha mostra o quão poderoso pode ser o encontro entre Gomes, Garin e o diretor musical Pedro Luís.

Assim, cheio de bons momentos, é uma pena que Gota D’Água [a seco] às vezes escorregue, como no final que desnecessariamente flerta com o apoteótico (cenário que desmorona, figurino que se eleva, tecido que se desdobra, música que se canta, partitura corporal que se executa, areia que verte, tudo ao mesmo tempo e agora).

Contudo, é um detalhe quase inofensivo no meio de um todo vigoroso.

GOTA D’ÁGUA [A SECO]

Ficha técnica
Texto: Chico Buarque e Paulo Pontes, a partir do original de Eurípides.
Adaptação e direção: Rafael Gomes
Elenco: Laila Garin e Alejandro Claveaux
Músicos: Antônia Adnet, Dudu Oliveira, Elcio Cáfaro, Marcelo Muller e Pedro Silveira
Direção Musical: Pedro Luís

Serviço
Até 30 de outubro. Sextas e sábados, às 21h e domingos, às 18h.
Ingressos: R$ 80,00 (sextas e domingos) e R$ 100,00 (sábados)
Teatro FAAP. Rua Alagoas, 903. Higienópolis.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*