Helio Barcellos Jr. escreveu sobre Bárbara Heliodora

Michel Fernandes

Ainda nos veremos, Helinho

Nós do Aplauso Brasil, há mais de um mês, perdemos um dos colaboradores mais queridos, um colunista excepcionalmente competente, apaixonado e apaixonante, Helio Barcellos Jr., quem, definitivamente, deixou seu nome inscrito no jornalismo cultural, sobretudo o de Porto Alegre.

Recebi a notícia de sua morte em plena turbulência do Festival de Curitiba, onde o conheci em meados da década passada, e, mesmo chocado, tive que dirigir nossa cobertura durante o Festival impedindo maior brevidade em render essa singela e muito, muito mesmo, dolorida homenagem.

Abaixo reproduzo um texto dele publicado aqui e, na sequencia, publicarei texto de Luis Francisco, amigo apresentado a mim e querido tanto quanto Hélio, um de nossos mais assíduos colaboradores.

Ai que saudades de ti, Helinho!

Delirantemente apaixonada pelo teatro

A crítica teatral Barbara Heliodora, 83, acha que a definição de teatro experimental é um pouco diferente no Brasil. “Eu nunca fui diretor, então estou experimentando dirigir; eu nunca fui ator, então estou experimentando atuar; eu nunca escrevi, então estou experimentando escrever”. Essa foi uma de suas pérolas durante a palestra sobre a importância da crítica teatral que ministrou semana passada para cerca de 250 pessoas no Teatro do Sesc, em Porto Alegre. Muito comunicativa, a jornalista de O Globo (RJ) fez a platéia rir muito e, aparentemente, divertiu-se muito ao opinar, de forma irreverente, sobre o teatro brasileiro ao longo de 90 minutos de conversa. Barbara destacou que uma das principais funções do crítico é preparar o público de uma peça com potencial para o novo. Declarou que ama o teatro delirantemente.

Mas ela começou falando sobre como o crítico teatral é visto no Brasil. Disse que, quando a análise é negativa, o cargo sempre é ocupado pelos jornalistas mais desonestos e incompetentes da redação, tomados por um ódio endereçado a uma lista de desafetos que serão destruídos com “um demoníaco e indizível prazer”. Por outro lado, quando a crítica é positiva, o autor é automaticamente considerado um gênio, mas ainda assim com ressalvas, pois há quem acredite que ele recebeu suborno para bajular o espetáculo.

Barbara Heliodora acredita que a crítica teatral é exercida por todos aqueles que assistem a uma peça de teatro e depois vão a um bar para discutir o que viram. Um crítico profissional, segundo ela, deve estudar muito e ter intimidade com os processos cênicos. Deve ser assíduo nas salas de teatro.  Além disso, é muito importante adorar o teatro: “Há um percentual altíssimo de horrores, o que faz com que só uma paixão muito grande permita que eu insista”, enfatizou.

A jornalista pensa que no Brasil a má crítica não interfere muito na bilheteria da peça, mas que a boa é capaz de levar muito mais gente ao teatro. “Essa alegria eu tenho”, garantiu, depois de lembrar que em Nova Iorque é bem diferente, pois 70% dos espetáculos fecham depois de três dias em cartaz. Por outro lado, destaca que comprar ingressos para ver um espetáculo de muito má qualidade acaba trazendo um peso muito negativo para o teatro, pois é provável que essas pessoas não queiram saber de ver outra peça durante, pelo menos, três anos.

Barbara também ressaltou que um crítico não deve ser benevolente com os mais jovens, o que já foi tema de muitas de suas discussões com o diretor Paschoal Carlos Magno, um dos maiores incentivadores de teatro no País. Ela acredita que não apontar um erro significa fazer mal aos jovens, pois esconder a verdade pode impedi-lo de construir uma boa carreira.  Para os que estão começando, sentenciou: “Grupos que nunca fizeram nada e que começam com Hamlet, Édipo Rei ou Mãe Coragem estão fadados ao fracasso”. Aos adeptos do teatro contemporâneo, recomendou: “Não tentem transformar Molière em Beckett”.

Barbara também abordou outras questões relacionadas ao teatro brasileiro. Entre elas, a absoluta impossibilidade de uma peça teatral começar na hora marcada. Contou que, depois de alguns cálculos, constatou que “perco todos os anos um dia de minha vida esperando que a cortina seja aberta”. E não entende por que isso acontece. “A peça não vai ficar melhor 15 minutos depois”. A jornalista considera essa uma questão muito séria, pois acredita que disciplina e respeito são fundamentais para o ator desempenhar sua profissão.

Quando lembrou das condições econômicas, perguntou: “Já viram a quantidade de monólogos que a gente tem que ver ? E respondeu: “Tenho vontade de me suicidar”. Mas fez questão de apontar uma exceção, a peça A Descoberta das Américas, de Júlio Adrião, encenada já em três oportunidades na Capital gaúcha. Por outro lado, também não acha justo que a produção não queira ser criticada a partir da apresentação de estréia do espetáculo, pois, se estão cobrando ingresso do público, pressupõe-se que a encenação esteja pronta.

“Sempre achei que teatro era uma grande escola da democracia, onde ninguém é mais importante do que o outro”, disse, para declarar seu amor aos palcos. “Não é fácil, minha gente, é terrível, é um arte muito difícil. Ah, mas quando é bom, é uma coisa que a gente nunca mais esquece. É maravilhoso. Fico feliz quando penso que essa vai para o meu epitáfio”, acrescentou, ao lembrar que viajou a Londres com o único objetivo de ver Ian McKellen em Rei Lear.

Na platéia da palestra, que fez parte do projeto Encontros de Cultura, promovido pelo Arte Sesc – Cultura por toda parte, estavam muitos nomes da cena teatral e da dança local. Entre eles, Luiz Paulo Vasconcellos, Sandra Dani, Roberto Oliveira, Adriane Mottola, Lauro Ramalho, Luís Francisco Wasilewski, Zé Mário Storino, Joca Vergo e Eduardo Severino. Estava, também, uma parte do elenco da peça porto-alegrense Casadíssima, a montagem que fez temporada há um ano meio no Rio de Janeiro, recebendo uma crítica muito negativa assinada por Barbara Heliodora. Sobre a peça, a crítica escreveu: “É um lamentável ajuntamento de episódios, cada um dos quais construído pelo que há de mais surrado, grosso e chulo a respeito do casamento”.

Mais sobre o estilo da jornalista pode ser conferido no site www.barbaraheliodora.com.br, que  reúne uma seleção generosa de suas avaliações.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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