“História Natural do Amor” ganha duas novas temporadas na capital

SÃO PAULO – Mesclando dados da bibliografia LGBTQ+ e dados biográficos do intérprete Guilherme Zanela, o espetáculo com texto, direção e dispositivo cênico de José Fernando Peixoto de Azevedo propõe a discussão sobre as questões de gênero e da sexualidade atualmente. A primeira – e curtíssima! – temporada será no Teatro Laboratório da ECA-USP sábado (19) e domingo (20), em seguida, de 23 a 31 de outubro se apresenta na SP Escola de Teatro -Sede Roosevelt.

As fontes primárias para História Natural do Amor são os ensaios publicados pela N-1 Edições Ética Bixa: Proclamações Libertárias para uma Militância, do filósofo espanhol Paco Vidarte, e de Pelo Cu: Política Anais, de Javier Saez e Sejo Carrascosa, para discutir os perigos, tabus, impasses e demais questões que cercam a sexualidade desde os períodos mais remotos e que se intensificaram nos últimos tempos.

Ainda que passagens biográficas estejam presentes, como a exibição de um vídeo de Guilherme, ainda criança, interpretando Jesus Cristo sendo crucificado em uma montagem escolar ou relatos sobre sua infância no Rio Grande do Sul, marcada por uma criação machista e heteronormativa, a peça lida com uma abordagem mais ampla, destacando dados alarmantes como o fato da homossexualidade ser crime em mais de 70 países, sendo que em alguns deles, como o Irã, é comum a prática de tortura e assassinato para punir pessoas LGBTQ+.

“Foi durante o processo de criação da peça que o Zé (diretor) me apresentou esses livros que sintetizavam muitas das questões alarmantes sobre como o sexo anal, o corpo não-hegemônico e os diversos estereótipos relacionados à sexualidade como circunstâncias que determinam a sociedade que vivemos”, conta Guilherme.

O texto da peça entremeia os relatos do ator com trechos dos livros que a inspiraram. As músicas que se sucedem durante o espetáculo, algumas cantadas pelo ator, propõem ambientes lidos como pertencentes ao universo gay, que vão desde clássicos da música pop até a sonoridade eletrônica de baladas.

“A natureza do meu amor tem a ver com o ânus, com o reto. Antes de falar do amor, eu preciso falar de como entrego o meu corpo ao outro e assim conto uma história natural do amor”, diz Guilherme Zanela.

A direção de José Fernando Peixoto de Azevedo – o mesmo diretor de Navalha na Carne Negra que faturou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro na categoria Melhor Ator Coadjuvante (Raphael Garcia) – entra com os dispositivos cênicos que caracterizam o seu trabalho –  imagens projetadas sobre a parede se integram à interpretação de Guilherme e sugerem novas leituras sobre a cena, como nos momentos em que o ator reinterpreta a feição de atores pornôs ou quando se grava dentro de uma cabana, oferecendo ao público uma cena com duas camadas, já que é possível assistir a cabana na cena ou o vídeo de Guilherme dentro dela sendo projetado.

O trabalho, pensado inicialmente como uma criação que consolidaria a formação de Guilherme na EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP), ganhou força ao longo da criação, escapando da proposta formativa para se tornar um trabalho cênico feito para circulação.

“Em alguns de seus trabalhos, José tem instaurado na relação presença-imagem, ator-câmera, aquilo que nomeia ‘dispositivos de saturação’: todo o empenho está em ver, nos corpos e nas relações produzidas, não apenas como se produz sujeitos, mas quando, em combate, esses corpos deixam de se sujeitar, esboçando outras possibilidades. Foi assim, por exemplo, na sua versão para o texto de Plínio Marcos, Navalha na Carne Negra”, conta Guilherme.

FICHA TÉCNICA

Direção, Dramaturgia e Dispositivo Cênico: José Fernando Peixoto de Azevedo

Ator: Guilherme Zanela

Vídeo em Cena: André Voulgaris

Música em Cena: Luca Pelucio Grecco

Desenho de Luz: Denilson Marques

Operadora de Luz: Juliana Kovalenkinas

Colaboração em processo: Julio Arack

Produção: Corpo Rastreado

Realização: Escola de Arte Dramática – EAD/ECA-USP

 

SERVIÇO

História Natural do Amor

60 minutos/ 18 anos


19 e 20 de outubro de 2019, sábado, às 21h e domingo, às 20h

Teatro Laboratório da ECA-USP – Prédio 8 (Rua da Reitoria, 215 – Cidade Universitária, São Paulo/SP)

Ingressos: Grátis

Capacidade: 80 lugares

 

23 a 31 de outubro de 2019, quartas e quintas, às 21h

SP Escola de Teatro (Praça Franklin Roosevelt, 210 – Bela Vista, São Paulo/SP)

Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

Capacidade: 60 lugares

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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