In On It desvela o processo de criação teatral

Kiko Rieser, especial para o Aplauso Brasil (kikorieser@aplausobrasil.com)

IN ON IT no Teatro Eva Herz até 1º de agosto

In on it não é um espetáculo assinado pela Cia. dos Atores, mas poderia muito bem sê-lo. É dirigido por Enrique Diaz, diretor e fundador da Cia., e tem atores e iluminador que já participaram de diversos espetáculos do grupo carioca. Mas, mais importante, In on it se encaixaria perfeitamente (ainda que trazendo novidades) no percurso que a Cia. desenvolve há mais de vinte anos.

Basta ver as obras de seu repertório para notar que se tratam de trabalhos com enorme coerência estética entre si, pertencentes a um programa artístico dos mais bem definidos entre os grupos brasileiros. O nome da Cia. já evidencia um pouco da práxis a que ela se propõe: refletir sobre o ator, sua condição dentro do processo de criação de um espetáculo, seu trabalho sobre um texto teatral pré-existente e sua ação sobre o mundo.

Texto do canadense Daniel MacIvor inédito no Brasil

São comuns, em sua trajetória, textos que já tratam em alguma medida do ator (caso de A Gaivota) ou do ato de simular aparências (como Hamlet), sendo vertidos pela Cia. para terem o teatro e o ator como focos, e recebendo na encenação outras camadas de metalinguagem que se relacionem com o material original e com a experiência real dos atores.

In on it, peça do canadense Daniel MacIvor, já tem em si diversas camadas de metalinguagem, o que faz com que a montagem de Enrique Diaz dispense adaptações substanciais, e talvez seja esse o motivo de não receber o nome da Cia.

Se os trabalhos do grupo buscam refletir sobre como o ator se relaciona com um texto pronto, In on it trata de um ator que está escrevendo o que, aparentemente, é sua primeira peça.

A obra de MacIvor busca mais entender o ofício do dramaturgo que o do intérprete e, por isso, provavelmente seja enriquecedor também como experiência para os próprios artistas envolvidos no espetáculo, fazendo-os entender melhor o processo de escritura das peças que, nas montagens da Cia., são recriadas por eles.

No texto, não é tão importante o fato de o novo dramaturgo ser um ator. É também um fator de ocasião, pois permite que ele e outro ator encenem sua peça conforme ela vai sendo escrita, exigindo apenas duas pessoas no elenco da montagem da peça de MacIvor (em todas as cenas há apenas duas personagens).

A trama se fundamenta em três tempos: o presente, em que ele debate com o outro ator acerca do processo – em curso – de escritura da peça e rememora fatos antigos; o passado, época em que os dois se conheceram, tornando-se namorados e depois companheiros, culminando com a separação; e o tempo da ficção, com a encenação da peça que a personagem escreve.

Fica claro, ao longo do espetáculo, que a peça que o ator escreve é uma forma de expurgar a dor pelo fim do relacionamento entre as duas personagens. São sutis os pontos de contato que vão sendo revelados, como pequenas manias do ex-amante que são transferidas para personagens secundárias da sua dramaturgia.

Como a maioria dos escritores, ele escreve sobre si e sobra sua própria experiência, mas sem que isso torne sua história hermética ou personalista a ponto de ser desinteressante a terceiros.

Sua metáfora da separação é a morte, através de seu protagonista, Raymond, um doente terminal. Não é uma solução do artista para culpar o ex-namorado ou jogar-lhe verdades na cara, mas uma forma de superação, entendendo o fim como um novo início. Deste modo, Raymond, ao se ver relegado a segundo plano pela família em dissolução, deixa sua herança para Loyd, o pequeno garoto que é abandonado pelo pai e pelo padrasto. Tudo é composto de ciclos e, assim, fica mais fácil compreender o fim de uma relação que nos é mostrada, desde o início, com diversas fricções e animosidades entre os dois.

Raymond diz algo como “do meio do círculo, não se pode ver o círculo todo de uma só vez”. É necessário distanciamento para assimilar algo em sua completude, e o ator-dramaturgo faz isso através de sua peça.

Esse jogo entre a ficção e a realidade, alternantes nos três tempos da peça, é ressaltado pela encenação de Enrique Diaz. O ambiente é composto a partir de uma exposição da maquinaria teatral, diluindo os limites entre encenação e vida, com camarins expostos e cenário praticamente ausente, formado apenas por dois cubos, duas cadeiras e uma espécie de tapete.

Ao mesmo tempo em que os limites entre as várias camadas do espetáculo são tênues, há uma preocupação com a clareza e, por isso, a iluminação de Maneco Quinderé é bem demarcada para cada uma das três épocas e, enquanto os planos da realidade (o presente e o passado) têm uma encenação mais despojada e realista, a peça do ator-dramaturgo é austera, com rigor nas marcações de cena, isolando sempre os interlocutores em pólos opostos do palco. Ainda assim, o caráter lúdico não se perde e os atores permanecem numa espécie de rotação constante, mantendo a instabilidade do jogo.

Os dois intérpretes, Fernando Eiras e Emílio de Mello, cumprem a árdua tarefa de se revezar entre um sem-número de personagens, demarcando claramente a diferença entre eles.

Parece incompreensível, no entanto, que as personagens femininas sejam representadas de modo caricato e afeminado, se assemelhando mais ao estereótipo de homossexuais afetados do que a mulheres de fato, o que fica deslocado diante das outras composições, todas permeadas por um tom melancólico que evidencia que não são fáceis os ritos de passagem que o espetáculo retrata. As personagens que compreendem melhor esses ritos, como Raymond e o autor da peça dentro da peça, demonstram mais doçura no trato com as outras e são mais calmas, pacientes, centradas. As outras personagens, que ainda não lidaram diretamente com o fim, ainda são mais ríspidas, agitadas, e usam sarcasmos como forma de ataque por não saberem se defender.

Essa diferença fica explícita por uma proposição da montagem: ao encenar a peça que está sendo escrita, os dois personagens-atores se revezam nos papéis. Especialmente nas interpretações de Raymond, ficam evidentes a dor e a maturidade quando representado pelo dramaturgo (Eiras), enquanto há um desespero quase infantil quando representado por seu ex-namorado (Mello).

Deste modo, o trabalho de Enrique Diaz (bem como o de seus companheiros nesta empreitada) amplia seus horizontes, ao falar diretamente sobre dramaturgia, mas não deixa de contemplar a reflexão sobre aqueles que dão nome à Cia. da qual é fundador.

IN ON IT

Horário: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h.

Data: 7 de maio a 1º de agosto de 2010.

Preços: R$ 40,00 (sexta) e R$ 50,00 (sábado e domingo).

Duração: 1h30

Local: Teatro Eva Herz

Endereço: Avenida Paulista, 2073, Conjunto Nacional – Consolação

Tel: (11) 3170-4059

Foto: divulgação.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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