“INCÊNDIOS” MEXICANO FAZ CURTA TEMPORADA NO SESC POMPÉIA

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

INCÊNDIOS
INCÊNDIOS

SÃO PAULO – Há cerca de um ano tive o primeiro contato com a potente, poética e urdida com perfeição dramaturgia de Wajdi Mouawad. Incêndios, dirigida por Aderbal Freire-Filho, deixou marcas indeléveis em quem a assistiu. Em 2012, no entanto, a montagem da companhia Tapioca Inn, do México, destacou-se no Festival Mirada do SESC SP (que infelizmente perdi!) e, a partir desta quinta-feira (17), a unidade Pompéia do SESC promove seu retorno, ainda que em apenas 10 dias, do espetáculo dirigido por Hugo Arrevillaga Serrano.

A peça começa com a morte de Nawal, mãe de um casal de gêmeos, guerrilheira ativa e defensora da liberdade durante a Guerra Civil do Líbano, que deixa como testamento a incumbência de que os gêmeos entreguem uma carta a seu pai, que acreditavam estar morto, e outra a seu irmão, cuja existência era por eles desconhecida. Ela pede, também, que a enterre nua e com a cabeça voltada para o chão, vez que não cumpriu suas promessas. Pede, ainda, que gravem seu nome numa pedra e a coloque sobre seu túmulo, assim que as cartas forem entregues e a promessa cumprida.

Assim como na tragédia grega que o inspirou – Édipo Rei, de Sófocles –, Incêndios faz uma incursão ao passado, até então desconhecido por seus filhos – desde sua adolescência –, proporcionando que o mosaico que é a vida das pessoas, no caso a de Nawal, seja completado.incendios-5-b

Wajdi emprega uma riqueza de recursos dramatúrgicos que torna o espectador protagonista da peça, assim como os gêmeos que unem os fios do passado de Nawal e, paulatinamente, são surpreendidos com o que desvelam, o é o espectador que tece a vida de Nawal conjuntamente com os gêmeos.

Segunda parte da tetralogia O Sangue de Promessas – formada, também, por Litoral, Floresta, e Céus, cuja montagem brasileira está prevista para estrear ano que vem, sob direção de Aderbal Freire-Filho -, Mouawad lança a questão da necessidade de se aprofundar nas dúvidas ancestrais dos seres humanos. Nos revela que há possibilidade de sobrevivência a partir dos atos mais naturais e generosos do homem: a transmissão do conhecimento por meio do ensinamento – da herança de vida – e da  transmissão da memória, por meio da narração de histórias e do fortalecimento dos laços entre os seres humanos.

A mudez voluntária dos últimos anos da vida de Nawal só é entendida a partir da leitura das cartas que, surpreendentemente, destinam-se a mesma pessoa. O diretor descreve que “partindo do mito de Édipo e o levando aos campos de batalha do Oriente Médio, Wajdi Mouawad elabora uma tragédia contemporânea, gerando um texto incendiário que nos deixa completamente vulneráveis a nós mesmos, à nossa memória, a nossos medos, dúvidas e certezas, mas com a possibilidade de esperança como último ato de justiça e redenção”.

Com mais de cento e quarenta apresentações por diversas partes do México e do mundo, o espetáculo completa seis anos de vida em 2015. Participou de importantes festivais internacionais, como o Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá (2012), o Festival MIRADA de Santos (2012), Festival Internacional de Teatro Sibiu na Romênia (2012) e o Festival Internacional de Teatro World Stages, realizado no Kennedy Center, em Washington (EUA) em 2014.

Criada por estudantes de Teatro da Universidade Nacional Autônoma do México, a Companhia Tapioca Inn nasceu em 2001 e há mais de dez anos tem trabalhado com as obras de Wajdi Mouawad.

Com uma cenografia simples, o espetáculo ganha nova dimensão ao estreitar o contato entre plateia e atores e permitir mútua influência.

Incêndios é uma “Ocupação Mirada”, uma forma de manter ativa a presença desses países na programação regular das unidades do SESC, que pretende intensificar o diálogo do Brasil com outros países que compõem a Ibero-América.

FICHA TÉCNICA

Texto: Wajdi Mouawad

Direção: Hugo Arrevillaga Serrano

Elenco:  Karina Gidi, Pedro Mira, Rebeca Trejo, Jorge León, Alejandra Chacón, Javier Oliván, Concepción Márquez e Guillermo Villegas

Tradução para o espanhol: Humberto Pérez Mortera

Cenografia e iluminação: Auda Caraza e Atenea Chávez

Figurino: Mario Marín del Río

Música Original: Ariel Cavalieri

Musicalização: Ariel Cavalieri y Hugo Arrevillaga

Direção técnica: Roberto Paredes

Asistência de Direção: Anabel Caballero

Asistência de Produção: Yannin Heredia

Produção Executiva: Rebeca Trejo

Produção no Brasil: Performas Produções

Direção de produção: Andrea Caruso Saturnino

Produção executiva: Ariane Cuminale

Construção do cenário: Carol Bucek

SERVIÇO: Sesc Pompeia recebe o espetáculo mexicano “Incêndios”, da Cia Tapioca Inn – Ocupação Mirada

De 17 a 27 de setembro de 2015. Quinta a sábado, às 20h. Domingos, às 18h.
Teatro. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 180 min. Capacidade: 300 lugares.

Ingressos: R$ 12,00 (credencial plena / trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 20,00 (usuário inscritos no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 40,00 (inteira).

Venda online a partir de 8 de setembro, terça-feira, às 17h30.
Venda presencial nas unidades do Sesc SP a partir de 9 de setembro, quarta-feira, às 17h30.

SESC Pompeia – Rua Clélia, 93, São Paulo.

Tel: (11) 3871-7700

Não temos estacionamento. Para informações sobre outras programações, acesse o portal: sescsp.org.br/pompeia

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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