“Inhai – Coisa de Viado” volta em cartaz para duas temporadas em SP

SÃO PAULO – Após uma temporada bem-sucedida em 2019, reflexão sobe homofobia do Coletivo Inominável programa apresentações no Cento Cultural da Diversidade e no Teatro Alfredo Mesquita a partir de março. O que significa ser viado nos dias de hoje? Artigos científicos, fatos históricos e notícias recentes servem de material cênico em Inhai – Coisa de Viado, espetáculo onde os viados do Coletivo Inominável tentam responder a essa pergunta.

Com dramaturgia de Fernando Pivotto e Cezar Zabell e direção de Zabell, o espetáculo parte da homofobia dos jesuítas no processo de colonização do Brasil até notícias recentes de conquistas de direitos da comunidade LGBT (com ênfase nos homens gays) para investigar os avanços, retrocessos e violências relacionados aos viados de ontem e de hoje e para imaginar e planejar o futuro que queremos para os viados de amanhã.

O elenco é composto por Cayke Scalioni, Fernando Pivotto e a drag queen Alexia Twister

Coisa de Viado

Traçando paralelos entre o veado (o cervídeo) e o viado (apelido geralmente pejorativo dado aos homens gays), Inhai – Coisa de Viado investiga a ocupação dos espaços simbólicos e a construção de um imaginário coletivo. Na mitologia chinesa, por exemplo, o veado é o símbolo da fertilidade e da saúde, enquanto que no Brasil a palavra viado foi veículo da homofobia até ser retomada e ressignificada pelos próprios viados.

Da mesma forma, Inhai – Coisa de Viado é um espetáculo que fala da violência histórica contra os homossexuais mas que também é um local para a celebração da viadagem. Afinal, no país em que mais se matam pessoas LGBTQI+ a celebração não é só um direito mas também uma ferramenta de transformação social.

Espaço de Partilha

Partindo das estruturas do teatro documentário, onde fotos, notícias e documentos reais são a base poética do espetáculo, Inhai – Coisa de Viado possui uma dramaturgia não-linear e em formato de esquetes, discutindo em cada quadro e cena o que é e o que foi ser viado nas infâncias (anos 80, 90 e 2000) e juventudes do elenco e o que tem sido ser viado nos dias de hoje. Além disso, a plateia é convidada continuamente a contribuir com o espetáculo, dando suas opiniões sobre determinado tema, comentando com o elenco as notícias recentes ou partilhando histórias sobre sua própria viadagem, estabelecendo então o teatro como um espaço de partilha, troca e construção coletiva.

Para fundamentar a dramaturgia, o coletivo pesquisou a história do movimento LGBTQI+ no país, principalmente através de grupos de militância como o Somos e o Grupo Gay da Bahia. Outras referências foram os trabalhos de João Silvério Trevisan, James N. Green e Bruno Bimbi, pesquisadores de nacionalidades distintas que em algum momento já voltaram seus olhares para a comunidade LGBTQI+ no país.  Os documentários São Paulo em Hi-fi, de Lufe Steffen; Abrindo o Armário, de Dário Menezes e Luís Abramo e Lampião da Esquina, de Lívia Perez também foram material de estudo do Coletivo e chegam ao espetáculo ou através da dramaturgia ou das conversas com a plateia ao longo da sessão.

Triângulo rosa

Com um triângulo rosa (em referência à identificação dos prisioneiros gays em campos de concentração nazista) feito de lâmpadas fluorescentes servindo como cenografia e com macacões de veludo marrom similar à pelagem dos veados como figurino, Inhai – Coisa de Viado negocia espaços de poesia com a secura e objetividade das notificas e fatos documentais que fortalecem a dramaturgia. O espetáculo ainda se apoia em projeções de tuites homofóbicos e infográficos como um mapa-mundi que marca em quais países ainda é crime ser gay, falando da situação dos gays em escala nacional e global.

Já a trilha sonora é composta por músicas que têm alguma ligação com a comunidade LGBTQI+

Temporada e oficina

Retomando os trabalhos em 2020, Inhai – Coisa de Viado volta com duas temporadas: uma no Centro Cultural da Diversidade nos dias 17, 18 e 19 (terça, quarta e quinta) de março, às 21h; e outra no Teatro Alfredo Mesquita nos dias 20 e 27 de março e 03 e 10 de abril, sextas-feiras, sempre às 21h. Em ambas as temporadas, os ingressos custarão R$ 30,00 com meia-entrada a R$ 15,00

Além disso, como parte de sua temporada no Centro Cultural da Diversidade, o Coletivo Inominável ministrará, nos dia 18 e 19, a oficina Narrativas Viadas, onde partilhará com os participantes procedimentos e dispositivos usados na construção do espetáculo  e que servirá como laboratório de construção de narrativas sobre a viadagem. A oficina é gratuita e as inscrições estão abertas até 12/03.

INHAI – COISA DE VIADO

Dias 17, 18 e 19 de março. Terça, quarta e quinta, 21h, no Centro Cultural da Diversidade.
Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo.
No dia 19 o espetáculo contará com audiodescrição

Dias 20 e 27/03 e 03 e 10/04. Sextas-feiras, 21h, no Teatro Alfredo Mesquita.
Avenida Santos Dummont, 1770 – Santana, São Paulo.

Duração: 80 minutos
Classificação: 18 anos
Ingressos: R$ 30,00

Oficina Narrativas Viadas
Dias 18 e 19 de março. Quarta e quinta, das 17h30 às 19h30.
Centro Cultural da Diversidade. Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo.
Inscrições: Envio de nome, idade, telefone, endereço, currículo resumido e carta de interesse para o e-mail ccdiversidade@gmail.com
Grátis.
Classificação: 18 anos

Ficha Técnica
Dramaturgia
: Fernando Pivotto e Cezar Zabell.
Direção: Cezar Zabell.
Assistência de direção: Fernando Pivotto
Elenco: Alexia Twister, Cayke Scalioni e Fernando Pivotto.
Figurinos: Cezar Zabell.
Design de Luz: Larissa Kaluzinski.
Design de projeção: Cayke Scalioni.
Desenhos originais: Bruna Sizilio.
Operação de luz e projeção: Murilo Góes.
Operação de som: Samantha Sarahyba.
Preparação corporal: Rico Malta

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!