“Insônia – Titus Macbeth”: Espetáculo que une obras de Shakespeare sobre o horror e o totalitarismo estreia no Sesc Avenida Paulista

 

SÃO PAULO – No mês de setembro, o Sesc Avenida Paulista recebe a estreia do espetáculo “Insônia – Titus Macbeth, com direção de André Guerreiro Lopes, que divide também a dramaturgia com Sérgio Roveri. A peça funde duas obras celebradas da antologia de Shakespeare, escritas e encenadas pela primeira vez na virada do século XVI para o XVII: Macbeth e Titus Andronicus, esta última encenadas pouquíssimas vezes no Brasil. A violência e a ambição são constantes em ambos os textos e contextualizam, de forma atual e contundente, a escalada desenfreada pela tomada do poder. A montagem tem como eixo central dois dos personagens mais fascinantes de Shakespeare, o general Titus Andronicus e Lady Macbeth, representados respectivamente por Helena Ignez e Djin Sganzerla, mãe e filha na vida real. O público acompanha ao mesmo tempo duas fábulas trágicas que se entrecruzam: de um lado a construção de uma violência institucional e implícita arquitetada por Lady Macbeth, com seu poder persuasivo quase sobrenatural, levando a um estado de insanidade e destruição. Do outro, o balé de violência explícita de Titus, uma espiral de vingança e ódio em uma sociedade já desumanizada, onde o horror é público e não causa mais espanto. O espetáculo fica em cartaz até 20 de outubro, de quinta a sábado, às 21h, e domingos e feriados, às 18h, no espaço Arte II da Unidade.

Titus Andronicus e Macbeth

Na obra original de Shakespeare, após uma campanha vitoriosa contra os godos, o poderoso general romano Titus Andronicus retorna para casa, trazendo entre seus prisioneiros a rainha Tamora e seus filhos. Incitado a assumir o trono, ele decide por declinar e indicar Saturnino, o herdeiro mais velho, o que acaba por desagradar Bassiano, o caçula, – ambos filhos do imperador morto – iniciando um período de disputas e extermínios. Considerado o trabalho mais violento e brutal de Shakespeare, Titus Andronicus expõe as atrocidades e destemperos motivados pela vingança, revelando a faceta mais sombria do ser humano.

Já em Macbeth, na versão escrita entre 1603 e 1607, o general homônimo, da guarda do Rei Duncan da Escócia, retorna para casa depois de uma batalha e se depara com três bruxas. As feiticeiras profetizam que o militar se tornará rei, o que instiga o general e sua esposa a tramar pela morte do seu monarca. O assassinato conduz o casal a uma série de crimes para se perpetuarem no poder, sendo assombrados por suas consciências e amaldiçoados por outras profecias.

Insônia – Titus Macbeth

Extremismos, governos intoxicados por seus projetos de poder, ambição desenfreada, implosão de princípios éticos, leis manipuladas, conspirações e selvageria, tendência ao totalitarismo e truculência. Em “Insônia – Titus Macbeth” os tempos cênicos das duas obras coexistem e criam ecos com a realidade brasileira, tornando latente sua contemporaneidade e expondo a distorção entre vilões e heróis.

“Meu interesse em entrecruzar Macbeth e Titus Andronicus foi justamente o de explorar o que surge dessa fricção, os contrastes, as complementaridades, o quanto as elipses na trama podem estimular a nossa imaginação. São dois textos muito diferentes: Titus, a peça de vingança juvenil, pouco conhecida no Brasil, por muitos considerada menor e demasiadamente violenta; Macbeth a obra-prima, a arquitetura de um projeto de poder assassino, envolvendo forças sobrenaturais” – explica o diretor André Guerreiro Lopes.

“Alguns estudiosos de Shakespeare acreditam que Macbeth é uma espécie de aprimoramento de Titus – como se em Titus o dramaturgo estivesse se aquecendo para escrever a grande tragédia que seria Macbeth. Não que Titus seja uma obra menor, longe disso. Mas com Titus, creem alguns especialistas, Shakespeare estaria dando início a um caminho que atingiria o seu apogeu em Macbeth” – comenta Sérgio Roveri, que divide a dramaturgia com Guerreiro.

Lady Macbeth alicia o público para serem seus cúmplices, conduzindo-o a gênese da violência e compartilhando a construção mental de uma ideia de ambição e poder. Tal ideia transforma-se aos poucos em um organismo autônomo, controlando seus idealizadores, em uma espiral vertiginosa de assassinatos, conspirações e violência. O sangue existe, mas vemos apenas seus vestígios, em mãos que não se podem lavar e em punhais que surgem como alucinações.

Ao mesmo tempo o espectador é testemunha de uma outra realidade, como num espelho distorcido: a violência desenfreada, o paroxismo do horror, conduzido por Titus. Um verdadeiro circo dantesco é criado em cena, gestado pelo ódio, vingança, e cegueira coletiva, em um desfile simbólico de membros cortados, banquetes trágicos e corpos empilhados. Os espectadores observam a cena, a naturalização da violência, em um convite à reflexão e sensibilização. O público vivencia o espetáculo de forma imersiva, como parte fundamental do jogo.

“No espetáculo somos conduzidos por Lady Macbeth e Titus numa jornada em que os tempos se embaralham e dilatam, como numa longa noite insone. De um lado vemos  agênese da ambição e violência do casal Macbeth, que levam à destruição e loucura, do outro os cacos de uma sociedade já desumanizada e em ruínas do universo Titus, movida por ódios e vinganças, pelo desrespeito à vida.  Uma terceira peça surge desse encontro, onde o público completa a experiência, livre para circular entre os atores e cenário durante a apresentação” – conclui Guerreiro.

 

FICHA TÉCNICA:

 

Texto: a partir das obras Titus Andronicus e Macbeth de William Shakespeare

Dramaturgia: Sérgio Roveri e André Guerreiro Lopes

Tradução de Macbeth: Marcos Daud com colaboração de Fernando Nuno

Direção e Concepção Cênica:  André Guerreiro Lopes

Com Helena Ignez, Djin Sganzerla, Michele Matalon, Samuel Kavalerski, Dirceu de Carvalho e Camila Bosso

Cenografia e Figurinos: Simone Mina

Concepção Sonora: Gregory Slivar

Iluminação: Marcelo Lazzaratto

Vídeo-projeções e Multimídia: André Guerreiro Lopes

Assistente de Direção: Samuel Kavalerski

Direção de Cena: Rafael Bicudo

Idealização: Escritório da Artes e Estúdio Lusco-fusco

Produção Cultural e Executiva: Joana Pegorari

Direção de Produção: Alexandre Brazil

Realização Artística: Estúdio Lusco-fusco e Escritório das Artes