“Juntos Somos Fortes, isso é o mais importante”, diz a atriz Carolina Mânica que estrela seu primeiro filme internacional, uma co-produção latina recente e já premiada

Foto de Fabio Audi

EM REDE – A atriz Carolina Mânica protagoniza a comédia Pornô para Principiantes, dirigida por Carlos Ameglio, uma coprodução Brasil-Argentina-Uruguai, que está disponível para aluguel no streaming nas plataformas Belas Artes à La Carte, Net Now, Vivo Play, Oi Play, Looke e Sky Play e estreou em cine drive-in, em meio a pandemia. Essa foi a primeira experiência no cinema internacional da artista brasileira, que passou dois meses no Uruguai e aprendeu a falar espanhol fluente para estrelar a produção.

O filme já ganhou o prêmio de melhor coprodução internacional no 14º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo e acompanha Victor (Martín Piroyansky), um padre que tem sua pacata rotina alterada quando um jovem estudante de cinema o encontra e começa a fazer perguntas sobre seu passado. O motivo: anos atrás Victor dirigiu o primeiro filme pornô uruguaio: um remake pornô de A Noiva de Frankenstein.

A atriz Carolina Mânica é a única brasileira a compor o elenco e conversou com o Aplauso Brasil para falar sobre cinema latino, o momento da cultura brasileira, arte e projetos. “Foram dois intensos meses no Uruguay, mudei para lá, aprendi a língua e enfrentei um set totalmente masculino com atores e técnicos ainda desconhecidos para mim, mas valeu a experiência”.

No filme Pornô para Principiantes, a atriz vive Ashley Cummings, uma estrela pornô internacional. Víctor obrigado a montar um o remake pornô de A Noiva de Frankenstein se apaixona por ela, que é a protagonista do filme. “Ela é uma mulher feminista, que luta por aquilo que quer, resiste e tem amor em tudo que faz”, define Carolina.

Para o Aplauso, ela conta como conseguiu o papel: “O filme eu fui chamada para uma audição e acabei indo bem em cenas de improviso, desde as conversas sobre o roteiro. Foi um caminho tradicional, mas eu acho que eu e o diretor conseguimos chegar em um lugar longe do fetiche”.

O filme “tratado como comédia” é para Carolina uma comédia romântica: “Eu defino esse filme como uma comédia romântica. Os bons filmes falam sobre amor, a nossa vida é sobre amor, amor ao próximo, ao que fazemos, algo além do amor sexual”.

Quando fala de amor, a interprete de Ashley diz que amor e religião – dois temas centrais tratados no filme – são importantes e complementares: “A religião virou uma máquina de poder, a intolerância religiosa é o contrário da palavra de Deus: ‘Amai ao próximo como a ti mesmo’. Como você ama o próximo sem respeitar quem ele é? A comédia é uma forma de trazer esses temas de um modo sutil, mas com crítica”, enfatiza.

Em uma conversa cheia de ganchos com a realidade em que vivemos, o cinema e o filme, Carolina diz que a cultura é a forma de ensinar respeito e trazer reflexão: “ Outro dia eu falei com o Mario Bortolotto ( dramaturgo e diretor) sobre tudo que estava acontecendo e ele veio com a imagem de troncos sendo levados para baixo e eu acho que de alguma forma, a gente está conseguindo desviar dos troncos que querem nos derrubar, porque a arte tem esse papel muito importante de mostrar para o ser humano que tudo é possível e que a vida precisa ser respeitada”.

Como uma mulher de posição, ela fala de política e chama ao investimento para a área cultural: “Querem cortar nosso direito de fazer cinema, querem de toda forma barrar essa expressão, como se a cultura e o cinema não fossem importantes. O cinema sempre foi a arte da resistência. Glauber Rocha, autor de Clássicos como Terra em Transe e pioneiro do cinema uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, está ai para mostrar para a gente que se a gente senta para ver um filme dele, a gente muda tanto por dentro, pela transformação que provoca pelo conhecimento”.

No papo também entrou o tema da metalinguagem, já que o filme Pornô para Principiantes também fala sobre o próprio cinema: “O sonho de fazer cinema, de fazer cultura. A cultura é um veículo de uma sociedade. Se a gente tira isso, o que resta? De troca, de autoconhecimento? A arte e a cultura têm a função de fazer sonhar além da mediocridade. Acho que pode ir nesse caminho do sonho de filmar que o filme traz”.

Mas e a arte latina? O cinema? O que traz de comum? Segundo a atriz, “arte e a cultura têm a função de fazer sonhar além da mediocridade. Acho que pode ir nesse caminho do sonho de filmar. Todo filme latino carrega questionamentos sobre sexualidade, religião, sociedade para trazer um conteúdo para a obra e isso é resistência. São poucos filmes realizados de fato, dependemos muito de verba, isenções e temos pouco. Produções morrem na praia e é importante falar isso e celebrar a realização de um longa também”.

E sobre celebrar realizações, Carolina dispara: “Juntos Somos Fortes, isso é o mais importante. Pornô para Principiantes é uma coprodução e só tinha eu de brasileira ali. O que eu vi no set era uma forma mais Argentina, Uruguaia. Eu não falava espanhol fluente antes do filme. É um filme que abriu as portas de uma carreira internacional. Estar em contato com outros atores e outras formas de estar em um set e ter outras (novas) relações, abriu meu campo de visão”.

FICHA TÉCNICA
Direção: Carlos Ameglio
Roteiro: Leonel D’Agostino, Carlos Ameglio e Bruno Cancio
Produtora: Mariana Secco
Coprodutores: Ignacio Rey, Paula Cosenza e Denise Gomes
Produção: Salado (Uruguay)
Coprodução: Río Rojo (Argentina) e Bossa Nova Films (Brasil)
Elenco: Martín Piroyansky, Nicolás Furtado, Carolina Mânica, Daniel Aráoz, Roberto Suárez e Nuria Fló
Distribuição: Pandora Filmes
País: Uruguai/Brasil/Argentina
Ano: 2019
Duração: 93 min.
Idioma: Espanhol
Classificação: 16 anos

Disponível para aluguel no streaming nas plataformas Belas Artes à La Carte, Net Now, Vivo Play, Oi Play, Looke e Sky Play.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!