Lendária inveja de Antonio Salieri por Mozart é levada para o palco

Nanda Rovere, do Aplauso Brasil (nanda@aplausobrasil.com.br)

"Um Réquiem Para Antonio"
“Um Réquiem Para Antonio”

SÃO PAULO- Um Requiém Para Antonio, texto inédito de Dib Carneiro Neto, é inspirado na lendária inveja do músico  italiano  Antônio Salieri  (1750-1825) pelo austríaco  Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91), ambos grandes compositores da música erudita mundial. A direção é de Gabriel Villela. No elenco estão: Elias Andreato (no papel de Salieri) e Claudio Fontana (Mozart), Nábia Vilela e Mariana Elisabetsky. O pianista Fernando Esteves executa a trilha que tem, como diretor musical, o maestro Miguel Briamonte. Em cartaz no Tucarena, a peça inaugura horário peculiar na temporada paulistana, sextas e sábados as sessões começam 22h.

A ideia de levar para os palcos a história dos compositores foi do ator Elias Andreato, que sugeriu o tema para Dib Carneiro Neto transformar em peça teatral. O objetivo do ator era a criação de um texto que possibilitasse o seu reencontro com o amigo Claudio Fontana. Amigos de  longa data, já trabalharam juntos no teatro diversas vezes, como em Andaime, de Sergio Roveri.

Na trama, Salieri está no leito de morte, delira e começa a acertar as contas com Mozart, que faleceu ainda muito jovem e 34 anos antes dele. Atormentado por estar sempre à sombra de Mozart, Antonio Salieri reencontra o seu rival e supostamente o envenena.

A lenda diz que Salieri enlouqueceu perseguindo Mozart no período em que conviveram na Áustria, obcecado pela vontade de destruí-lo e de impedir a sua criação. 

Vale ressaltar, no entanto, que o compositor italiano Antonio Salieri é menos conhecido do que Mozart, mas teve uma carreira produtiva na música erudita do século XIX; era conhecido e respeitado. 

"Um Réquiem Para Antonio"
“Um Réquiem Para Antonio”

Neste sentido, não há provas com relação à veracidade dessa rivalidade entre os dois compositores, mas o importante na montagem é contar a fábula e chamar a atenção do público para o talento dos artistas.

As histórias a respeito do relacionamento de Salieri com Mozart  foram disseminadas através da peça de teatro de Peter Shaffer, que foi adaptada para o cinema com o título Amadeus, por Milos Forman, vencedor de oito Prêmios Oscar em 1984.

Segundo Dib Carneiro Neto, a peça valoriza o mito e está focada na inveja artística que Salieri nutria pelo Mozart.

¨Quanto mais eu buscava a verdade na relação entre os dois, mais eu ficava fascinado pela ficção”, diz o autor sobre o processo de criação.

Dib ressalta que o seu objetivo enquanto dramaturgo foi transmitir ao público que Mozart e Salieri são exemplos do triunfo da imaginação.

¨Nas mãos do Gabriel a imaginação foi elevada à máxima potência¨, diz.

"Um Réquiem Para Antonio"
“Um Réquiem Para Antonio”

A encenação de Gabriel Villela usa a linguagem circense para destacar o lado mítico da inveja.

¨Não existo sem o circo e o teatro de rua. É a minha herança. É natural que a história ganhe aspectos da linguagem mineira/ barroca”, diz o diretor.

É a primeira vez que Elias Andreato e Mariana Elisabetsky trabalham com Villela. Já Claudio Fontana e Nábia Villela  foram dirigidos em várias peças pelo diretor, entre elas, A Ponte e a Água de Piscina, de Alcides Nogueira.

Andreato não tinha experiência com a linguagem circense. Está muito feliz com a oportunidade de participar do projeto e acredita que será muito prazerosa a temporada.

¨O espetáculo tem um acabamento requintado que protege o ator e o coloca muito seguro em cena. O teatro do Gabriel nos conduz pela beleza, pela delicadeza. É um desafio, um jogo estimulante e criativo¨, afirma o ator sobre o processo de direção de Villela.

¨Admiro o Claudio (Fontana) como pessoa e artista e me sinto muito à vontade com ele em cena¨, complementa Andreato.

Fontana também declara que o processo de trabalho está sendo prazeroso, sobretudo pela oportunidade de voltar a ser dirigido por Villela e contracenar com Nábia e Andreato.

Para o ator, “atuar num espetáculo não-realista é um trunfo, pois exercita e aprimora a sua interpretação. ¨

Um pequeno picadeiro florido recebe o embate entre os dois compositores. A montagem foi criada especialmente para a arena e todo o espaço da sala de espetáculos recebe o cenário, que valoriza a poesia do texto e da encenação.

Na montagem de Villela. Salieri é sombrio, confuso e frágil, enquanto Mozart é gozador, confiante e ágil, características presentes nos figurinos elaborados por Villela e José Rosa, que chamam a atenção pela beleza, assim como os adereços, confeccionados pelo artista plástico Shicó do Mamulengo, do Rio Grande do Norte.

A trilha tem função dramatúrgica, na medida em que conduz as  neuroses e lembranças de Salieri. As músicas são interpretadas pelas atrizes e cantoras Nábia Villela e Mariana Elisabetsky, que também vivem personagens que passaram pela vida dos compositores.

São 5 as composições de Mozart escolhidas para entrar peça: Sinfonia em Sol Menor, Marcha Turca, Rainha da Noite (ária da ópera Flauta Mágica) e Lacrimosa (ária do seu último réquiem).

 

Pesquisa para a encenação

Como fonte de pesquisa, Dib Carneiro Neto usou as peças teatrais de Pushkin e de Peter Shaffer, o filme Amadeus, de Milos Forman, as biografias de Harold Schonberg e Peter Gay e as cartas de Leopold (pai de Mozart).

Para nortear a encenação, o diretor Gabriel Villela usou o livro de Elias Norbert, Mozart – sociologia de um gênio, que traz uma profunda análise sobre o artista e sobre o seu talento para criar obras-primas, ao mesmo tempo em que apresentava um comportamento debochado e ações infantis.

Claudio Fontana ressalta que a pesquisa sobre Mozart se complementa com a audição de suas criações musicais.

¨Parecem dois personagens diferentes porque, quando lemos sobre Mozart, conhecemos o seu lado irresponsável, mas, quando ouvimos as suas composições, percebemos a genialidade de um dos maiores compositores que a humanidade já viu¨, declara Fontana.

Ficha técnica:

Texto: Dib Carneiro Neto.

Direção: Gabriel Villela.

Elenco: Elias Andreato, Claudio Fontana, Nábia Vilela e Mariana Elizabetsky.

Figurino: Gabriel Villela e José Rosa.

Cenário: Márcio Vinícius.

Adereços: Shicó do Mamulengo.

Iluminação: Wagner Freire.

Preparação vocal: Babaya.

Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Mônica.

Direção musical e arranjos: Miguel Briamonte.

Pianista: Fernando Esteves.

Assistência de direção: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo.

Produção executiva: Clíssia Morais e Francisco Marques.

Direção de produção: Claudio Fontana.

 

Serviço:

Um Requiém Para Antonio. Tragicomédia. Com Elias Andreato e Claudio Fontana. Direção:  Gabriel Villela. Duração 70min. Teatro Tucarena. Sex e Sáb 22h, Dom 19h. R$ 40 (sex), R$ 50 (sáb e dom). Classificação 14 anos. Estreia 17/01. Vendas online – www.ingressorapido.com.br

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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