Livro de Valéria Polizzi, soropositiva há mais de 20 anos, ganha versão teatral

Maurício Mellone* (aplauso@gmail.com)

Valéria Polizzi cercada pelo elenco de "Depois "

Com produção da jornalista Roseli Tardelli, Depois Daquela Viagem é uma adaptação de Dib Carneiro Neto de livro homônimo escrito por Valéria Polizzi. Sob a direção de Abigail Wimer, a montagem conta com 14 jovens atores, que dão vida à turma com que Valéria convivia na época que contraiu o HIV

A história de Valéria Piassa Polizzi é conhecida por muitos graças ao seu livro, Depois Daquela Viagem (Editora Ática), lançado há 13 anos em que ela relata sua experiência de vida, desde que contraiu o vírus HIV na primeira relação sexual (“sem camisinha”) aos 16 anos, até superar suas limitações interiores e enfrentar a doença. Hoje Valéria, com 40 anos, é exemplo de pessoa que soube lidar com a Aids e passou a lutar contra o preconceito e a discriminação. Do livro — um best-seller que já vendeu mais de 300 mil exemplares e foi editado em diversos países—, Depois Daquela Viagem foi transposto para o teatro pelo dramaturgo Dib Carneiro Neto e acaba de estrear no Teatro Anchieta, SESC Consolação, em curta temporada: quartas e quintas somente até dia 20 de outubro.

No programa de apresentação da peça, a jornalista e produtora do espetáculo Roseli Tardelli diz esperar que este trabalho contribua contra a ignorância e a falta de informação sobre Aids:

“As pessoas infectadas com o vírus HIV causador da Aids ainda sofrem com preconceito e discriminação. Hoje, análise de dados epidemiológicos aponta a feminização da epidemia, com maior atenção à faixa etária de 13 a 19 anos, em que existem oito casos em meninos para cada 10 em meninas. Creio que o livro da Valéria, transformado agora em peça teatral, vai atingir este público e possibilitar uma reflexão dos jovens sobre sua vulnerabilidade!”, atesta.

Taí a maior contribuição do espetáculo: ser didático ao mostrar no palco uma história real e bem próxima dos adolescentes. Com o vigor dos 14 jovens atores no palco, a história de Valéria Polizzi é apresentada de maneira ágil e criativa.

"Depois Daquela Viagem"

Valéria é interpretada por três atrizes, que vivem momentos distintos de sua vida: na infância, na adolescência e com 20 poucos anos quando assumiu o tratamento. Sem se ater à cronologia dos fatos, a narrativa tem alternância entre passado e presente, graças ao recurso, o público pode construir a dura e sofrida experiência de vida da personagem. A relação de Valéria com os pais, sua forte ligação com os amigos na adolescência e o drama de aprender a conviver com a doença são mostrados com dinamismo pelos atores, que se revezam vivendo diversos personagens.

A peça mostra muito bem o sofrimento tanto físico como psicológico de Valéria, que além dos problemas físicos causados pelo vírus da Aids, sentiu na pele o que é o preconceito, no Brasil e nos EUA, onde viveu alguns anos depois de saber da contaminação.

Até Valéria entender que era possível se tratar (fugiu o quanto pode do tratamento com anti-retrovirais), sua trajetória foi de solidão e sofrimento interior. A peça dá ênfase a essa fase da vida de Valéria e, no meu entender, deveria também enfatizar o vacilo da personagem ao transar com o namoradinho sem usar camisinha.

Confesso que tive receio em assistir à peça, por já ter vivido muito de perto o drama que a Aids provoca. Felizmente, o espetáculo mostra, além da dificuldade de se ver contaminada, como Valéria soube lidar com a doença e hoje luta contra a discriminação, a intolerância e o preconceito.

Valéria, como inúmeras pessoas hoje em dia no mundo, convive com a doença e tem uma vida normal. Ela optou pela vida e soube dizer um NÃO ao atestado de morte que a Aids já foi um dia.

Roteiro:

Depois Daquela Viagem. Texto: Dib Carneiro Neto, baseado no livro do mesmo nome de Valéria Piassa Polizzi . Direção geral e musical: Abigail Wimer. Direção de atores: Silen de Castro. Elenco:Camila Minhoto, Carol Capacle, Charlene Chagas, Daphne Bozaski, Eliot Tosta, Geraldo Rodrigues, Giovani Tozi, Leonardo Stefanini, Maria Bia Martins, Mariana Leme, Naiara de Castro, Osvaldo Antunes, Rafael Sola e Renata Fasanella. Cenários e figurinos: Márcio Medina. Iluminação:Domingos Quintiliano. Fotografia: João Caldas. Direção de Produção: Roseli Tardelli.

Serviço:
SESC Consolação- Teatro Anchieta (320 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel: 3234-3000.Temporada: quartas e quintas, às 20h, até 20 de outubro. Ingressos: R$ 10,00, R$ 5,00 e R$ 2,50. Duração – 1h40. Censura –14 anos. Ar condicionado e espaço para deficientes físicos. Aceitam-se cartões de crédito e cheques de todos os bancos. Bilheteria: de segunda a sexta, das 12h30 às 21 horas, sábados, das 9 às 21 horas e aos domingos, das 14 às 20 horas.www.sescsp.org.br

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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