Macbeth, de Shakespeare, sob o prisma de Gabriel Villela

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Marcelo Antony encarna Macbeth e Cláudi Fontana, Lady Macbeth

O diretor optou pela interpretação somente com homens como acontecia nas montagens shakespearianas. Assim, o casal Macbeth é vivido por Marcello Antony e Claudio Fontana, que dividem a cena com Helio Cicero, Marco Antônio Pâmio, Carlos Morelli, José Rosa, Marco Furlan e Rogerio Brito

SÃO PAULO – Já tendo dirigido Romeu e Julieta com o Grupo Galpão e mais recentemente Ricardo III, o diretor Gabriel Villela volta ao universo de William Shakespeare, desta vez para apresentar ao público sua versão para Macbeth, considerada a peça mais soturna do repertório do dramaturgo britânico. A montagem do texto, traduzido por Marcos Daud, estreou na semana passada no Teatro VIVO, permanecendo em cartaz até o final de julho.

Com rigor, Villela — que assina a adaptação do texto e a trilha sonora, além de ter criado o figurino em parceria com Shicó do Mamulengo —, imprime sua personalidade na montagem. Dos 20 personagens originais, ele adaptou para oito, interpretados somente por homens. Contou em sua equipe com a italiana Francesca Della Monica, que trabalhou a concepção de voz do espetáculo, com Babaya, responsável pela direção de texto e com Ernani Maletta que cuidou da musicalidade da cena, além da assessoria de três assistentes de direção, César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi. E o fundamental: o diretor nesta montagem prioriza o texto e a poética de Shakespeare.

Claudio Fontana, Marco Antonio Pâmio e Marcello Antony em "Macbeth"

Aos fãs de teatro, ter acesso a um clássico como Macbeth é sempre uma grande motivação: o enredo, amplamente difundido, provoca a curiosidade do público em saber como ele será conduzido. A trama, que revela o lado mais perverso e tirânico da alma humana, traz no início o jovem Macbeth como herói por ter liderado e vencido batalhas. Em recompensa, o rei Duncan, da Escócia, o condecora; no entanto, corroído pela ambição e instigado pela perversa mulher, ele cede a seu impulso homicida e mata o rei, assumindo o trono. A ganância e luta pelo poder dão início a uma sequência de crimes e assassinatos, culminando com a própria morte do monarca.

Um dos diferenciais da montagem de Gabriel Villela que mais chama a atenção é a movimentação coreográfica dos atores; há uma espécie de traço imaginário em que os atores se movimentam em linha reta e quando falam permanecem com a mesma postura: um pé no chão e o outro só com a ponta do pé apoiada no piso. Lady Macbeth, que Claudio Fontana interpreta com brilhantismo, tem um passo característico: com uma túnica negra esvoaçante, ela desliza pelo palco.

O figurino também merece destaque: a indumentária de guerra foi confeccionada a partir de malas antigas de couro e papelão: “Ao mesmo tempo em que criamos um figurino que remete à guerra, buscamos fazer uma brincadeira lúdica em cima do conceito popular d etransformar um objeto em outro, uma mala em uma armadura de guerra”, explica o diretor.

O cenário de Márcio Vinícius é outro destaque: dois teares justapostos formam uma grande torre, que se movimenta e assume papel central na narrativa cênica.

No entanto, o que sobressai em Macbeth de Gabriel Villela é a interpretação: os oito atores estão coesos e prendem a atenção do público desde a primeira cena. Marcello Antony defende o personagem central com maestria; Marco Antônio Pâmio (ver entrevista exclusiva Marco Antônio Pâmio de volta a Shakespeare), na pele de Banquo magnetiza a plateia, principalmente quando aparece para Macbeth e o aterroriza. Rogerio Brito, Marco Furlan e José Rosa, como as três bruxas, conseguem extrair humor e ironia de situações trágicas e ardis.

Roteiro:
Macbeth.
Texto: William Shakespeare. Tradução: Marcos Daud. Direção e adaptação: Gabriel Villela. Assistência de direção: César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi. Elenco: Marcello Antony, Claudio Fontana, Helio Cicero, Marco Antônio Pâmio, Carlos Morelli, José Rosa, Marco Furlan e Rogério Brito. Figurinos: Gabriel Villela e Shicó do Mamulengo. Cenografia: Marcio Vinicius. Iluminação: Wagner Freire. Antropologia da voz: Francesca Della Monica. Direção de texto: Babaya. Musicalidade da cena: Ernani Maletta. Trilha sonora: Gabriel Villela. Direção de movimento: Ricardo Rizzo. Adereços: Shicó do Mamulengo e Veluma Pereira. Fotografia: João Caldas. Direção de produção: Claudio Fontana

Serviço:
Teatro VIVO (290 lugares), Av. Dr. Chucri Zaidan, 860. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: R$ 50 (sex e dom), R$ 70 (sab).Serviço de valet: R$ 18,00. Estacionamento: R$18,00 (só dinheiro). Bilheteria: aberta de terça a quinta  das 14h às 20h e  de sexta a domingo, das 14h até o início do espetáculo. Tel: 7420-1520. Aceita todos os cartões. Classificação: 12 anos. Duração de 90 minutos. Temporada: até 22 de julho.

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Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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