Maria Miss é conto de Guimarães Rosa adaptado para o teatro

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Tania Castello dá vida à Maria Miss

Evil Rebouças transpôs para os palcos o conto Esses Lopes, que narra a trajetória de uma sertaneja que sofre nas mãos de homens machistas de uma mesma família. Sob direção de Yara de Novaes, estão no elenco Tania Casttello, Daniel Alvim e Cacá Amaral

SÃO PAULO – O universo de João Guimarães Rosa, com sua linguagem peculiar e a realidade do sertanejo das Minas Gerais, está retratado no espetáculo Maria Miss, que acaba de estrear no Teatro Eva Herz, e é uma adaptação do conto Esses Lopes, que está no livro Tutameia, do revolucionário escritor mineiro.

A trama é focada nas aventuras e desventuras de Flausina, que, ainda menor de idade, foi praticamente raptada por dois primos, os Lopes, e obrigada a viver ao lado deles. Homens rudes, machistas e violentos mantêm a garota sob o cabresto, mas Flausina — que sempre quis se chamar Maria Miss — consegue “domar” as feras e vira o jogo a seu favor.

Com cenário simples e funcional, assinado por Márcio Medina (responsável também pelos figurinos), a peça começa com Flausina/Maria Miss, interpretada por Tania Castello, narrando a história do que aconteceu com ela e, num ritmo de vai e vem entre o passado e o presente, o espectador é enlaçado à trama.

Peça é baseada em "Esses Lopes", do escritor mineiro

O estilo e a experiência linguística de Guimarães Rosa são marcantes em sua obra e a adaptação do conto não se esquivou de retratar com fidelidade o narrar do romancista; por isto no início há um pequeno estranhamento com o linguajar peculiar dos personagens de Rosa, mas graças ao talento dos atores a plateia logo embarca na proposta da montagem.

Se no início a garota, mesmo contrariada, se submete aos caprichos e desmandos daqueles quatro homens valentões — vividos por Daniel Alvim e Cacá Amaral que dobram os papéis para viver os irmãos e um primo da família Lopes —, aos poucos Maria Miss descobre seu poder de sedução e com malícia e seu jeito brejeiro consegue se livrar da opressão.

“O belo no conto de Guimarães Rosa é o modo como ele mostra o silêncio de uma mulher subjugada. Maria Miss sofre as piores atrocidades físicas e morais, mas no seu silêncio ela traça a liberdade”, explica Evill Rebouças.

O espetáculo, idealizado pela atriz, faz um tributo a Guimarães Rosa, que morreu há exatamente 45 anos; o conto é um dos poucos do autor sob a ótica feminina e “fala de uma mulher que transformou seu destino, como tantas brasileiras, o que me encanta. Guimarães Rosa é um gênio da palavra”, diz Tania Castello.

Tanto o responsável pela adaptação como a direção do espetáculo merecem todos os elogios: a história de Maria Miss é bem contada e prende a atenção do espectador durante os 75 minutos de duração da peça. Além da iluminação de Wagner Freire, a interpretação afinada dos três atores é o grande destaque da montagem.

Roteiro:
Maria Miss
. Conto: Guimarães Rosa. Adaptação: Evill Rebouças. Direção: Yara de Novaes. Elenco: Tania Casttello, Daniel Alvim e Cacá Amaral. Cenografia e figurinos: Márcio Medina. Direção musical: Rodrigo Mercadante. Iluminação: Wagner Freire. Fotos: João Caldas. Direção de produção: Mesa2 Produções Artísticas.

Serrviço:
Teatro Eva Herz (166 lugares), Livraria Cultura, Conjunto Nacional, Av. Paulista, 2073,Tel.: (11) 3170-4059. Horários: terças e quartas, às 21h. Ingressos: R$30,00. Bilheteria: de segunda a sábado, das 14 às 21 horas e aos domingos e feriados, das 12 às 20 horas. Ingressos à venda pela Internet:www.teatroevaherz.com.br ou www.ingresso.com.br. Formas de pagamento: dinheiro e todos os cartões de débito e crédito, não aceitam cheques. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Temporada: até 25 de julho.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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