MITsp: SELA COMPROMISSO COM A QUALIDADE E A FORMAÇÃO

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

AS IRMÃS MACALUSO_CRÉDITO_Carmine_Maringola
AS IRMÃS MACALUSO_CRÉDITO_Carmine_Maringola

SÃO PAULO – O formato da MITsp é antagônico ao de um Festival à medida em que prioriza investir seus recursos em “trabalhos de qualidade em que os grupos ou companhias sejam relevantes nas artes cênicas, que estejam conectados com uma experimentação e com a investigação cênica”, diz.

WOYZECK
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“Isso traz o caráter de um festival mais arrojado o que atraiu o interesse de algumas pessoas, não só de artistas, mas do público em geral que gosta de teatro, que gosta de ver trabalhos mais ousados e diferentes do padrão convencional”, completa Antonio Araújo.

 

UMA CURADORIA QUE PRECEDE A MITsp

JULIA_CREDITO_MARCELO_LIPIANI
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Antonio Araújo é diretor de uma das companhias mais respeitadas no país e fora dele, o Teatro da Vertigem, que representa o Brasil em dezenas de festivais internacionais de teatro e, neles, que Araújo teve a oportunidade de assistir a maior parte dos espetáculos escolhidos. Segundo o diretor, seu trabalho de curadoria da MITsp começou antes mesmo da mostra existir.

“Essas escolhas acontecem antes mesmo da primeira edição da MITsp. O fato do Teatro da Vertigem, grupo que dirijo, viajar bastante e participar de vários festivais internacionais, me permite ver e conhecer muita coisa, entrar em contato com muitos trabalhos, artistas, companhias e me deu um repertório de trabalhos e obras interessantes. Quando encontrei o Guilherme (Marques) e decidimos fazer um festival, eu já tinha alguns diretores, companhias e espetáculos que eu gostaria de trazer a São Paulo. A mostra tenta trazer alguns trabalhos de investigação cênica importantes”, diz.

STIFTERS DINGE_net CREDITO_Ewa_Herzog
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Dentre a cartela de espetáculos oferecidos, um dos destaques formais dos trabalhos é a integração de diferentes disciplinas artísticas – como  o uso da dança, das imagens, do vídeo, da música etc. – para estabelecer a comunicação entre espetáculo/ espectador.

“Iremos trazer alguns diretores, como a inglesa Kate Mitchell (apresentando o espetáculo Senhorita Júlia, com a companhia alemã Schäubühne) que trabalha nessa parte de teatro-cinema, além de muitos artistas inspirados no trabalho dela, dando continuidade nas pesquisas da relação do teatro com o audiovisual. Você tem o uso de imagens no trabalho do Goebbels (Heiner Goebbels com Stifters Dinge, da Suíça), do Zholdak (Woyzeck), da Ucrânia, então você terá vários espetáculos nos quais há a presença do vídeo e do cinema. O que vai de encontro com a proposta do festival, desde o ano passado, de ampliar as artes e o leque de possibilidades do teatro. Teremos muitos espetáculos onde há esse cruzamento, por mais que a mostra se chame mostra internacional de teatro, nós pensamos em teatro de uma maneira ampliada e expandida”, completa.

 

COMPROMISSO COM A FORMAÇÃO

OPUS Nº7 CREDITO_Natalia_Cheban
OPUS Nº7 CREDITO_Natalia_Cheban

Uma das marcas que fazem da MITsp um evento que suplanta o período em que ocorre e permanece na pauta de quem se preocupa com as possibilidades existentes para formularmos equações utilizáveis nas artes cênicas, é a acuidade com atividades formativas oferecidas.

CANCAO DE MUITO LONGE_FOTO_Jan Versweyveld
CANCAO DE MUITO LONGE_FOTO_Jan Versweyveld

Encontros em que os criadores falam sobre seus processos de trabalho, leituras críticas feitas dos trabalhos apresentados, mesas de discussão sobre temas referentes ao entorno  dos espetáculos da programação, entre outras, visam fomentar as reflexões sobre o modo estético teatral, a abordagem temática, relações entre o clássico e suas novas leituras, sempre ampliando nossos olhares sobre o visto, agora ou no porvir, o que dá ao MITsp a aura de atemporal, porque não se finda com seu término.

MatandoElTiempo_FotoJuanCarlosMazo
MatandoElTiempo_FotoJuanCarlosMazo

“Essas atividades reflexivas, críticas, tem o mesmo peso carregado pela grade de espetáculos. Nós sempre lutamos para que essas atividades não fossem paralelas ou penduricalhos dentro da mostra, mas para que elas fossem/sejam parte da estrutura da mostra, por isso você tem desde pessoas, intelectuais de fora do teatro que são chamadas para discutir os espetáculos até a ponte com os professores de artes cênicas de universidades do Brasil todo e esses professores vem tanto para realizarem palestras quanto para escreverem artigos, ensaios críticos inéditos sobre os espetáculos e grupos que os compõe. Além disso, há o encontro dos artistas com o público para discutir os processos de criação dos trabalhos e os críticos que são convidados para produzirem críticas diárias que são digitalizadas e postas em jornais, folhetos que são disponibilizados para o pessoal que chega para ver as apresentações, assim há o tempo todo um fomento ao olhar crítico. Tudo isso gera o fomento ao pensamento, reflexão a atitude crítica. Sem falar das atividades pedagógicas que foram ampliadas esse ano, termos estágios na parte de montagem, nos ensaios finais do espetáculo Canção de Muito Longe (Companhia Toneelgroep Amsterdam), do holandês Ivo van Hove, que é uma estreia mundial, você encontrará workshops para atores. Então haverá uma série de cursos, conferências, aulas, atividades pedagógicas que são superimportantes”, conta Guilherme Marques.

SENHORITA JULIA_CREDITO_Stephen_Cummiskey
SENHORITA JULIA_CREDITO_Stephen_Cummiskey

 

REFLEXÃO ESTÉTICO-POLÍTICA

ARQUIVOt CRÉDITO_Muna_A-Nawaj'ah
ARQUIVOt CRÉDITO_Muna_A-Nawaj’ah

Uma das novidades dessa segunda edição da MITsp é a Reflexão Estético-Política  que trará debates sobre conflitos sócio-políticos e suas repercussões na estética cênica, como o conflito Israel-Palestina, personificado no espetáculo Arquivo, do coreógrafo israelense Arkadi Zaides, “ é completamente comprometido ao que está acontecendo na Palestina, ele coloca o dedo na ferida, a medida em que você tem o olhar dos palestinos num material fílmico, que é apresentado durante o espetáculo, e o corpo dele judeu, que vai mimetizar esses movimentos gravados pelos palestinos”, explica Antonio Araújo. “No caso dos espetáculos da Rússia e da Ucrânia, o da Ucrânia (Woyzeck) dialoga com a Ucrânia atual, apesar de não ser um espetáculo atual, ele tenta estabelecer o contato o seu próprio país. No caso dos espetáculos russos, um deles, Opus nº7 , foca numa questão histórica que é justamente a perseguição aos judeus da época stalinista. O fato de você ter no mesmo festival espetáculos russos, ucranianos, portanto, artistas russos e ucranianos torna-se uma ação política por si só!”, completa Antonio Araújo.

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Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.