CRÍTICA: MITSP TRAZ “CINDERELA” SURPREENDENTE PARA ABERTURA E ENCANTA LOGO DE CARA

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

" Cinderela (Cendrillon)". Foto: divulgação.
” Cinderela (Cendrillon)”. Foto: divulgação.

SÃO PAULO – A Mostra Internacional de Teatro (MITsp) mais uma vez abriu a programação com chave de ouro. Na terceira edição, o evento que apresenta uma Mostra mais compacta alegando a crise econômica e questões com a variação cambial, não deixou de lado a qualidade. O espetáculo Cinderela (Cendrillon), assinado e dirigido pelo francês Joël Pommerat, encantou a plateia pela criativa e inusitada releitura que fez do famoso conto dos Irmãos Grimm.

O Auditório Ibirapuera, como já virou tradição na Mostra, foi o palco escolhido para abertura. A diferença para os anos anteriores da MITsp é que o espaço foi pouco preenchido. Entre os 800 lugares do teatro muitos estavam vazios. O dia da abertura, quinta-feira (03), foi uma noite chuvosa e de trânsito pesado, mas tanto o evento como a peça de Pommerat mereciam casa cheia.

A obra que o autor é diretor francês apresentou foge do comum. Parte de uma história conhecida para lhe dar outra cara e tratar ao mesmo tempo questões atemporais do homem e a sociedade contemporânea. Pommerat já fez outras releituras de contos infantis como Chapeuzinho Vermelho e Pinóquio, e, certamente, deixou as três plateias para quem se apresentou na Mostra curiosas para conhecê-la.

Cinderela (Cendrillon) é a primeira obra infanto-juvenil que a MITsp apresenta nos seus três anos de história e foi uma boa escolha para abertura por ser provocadora e única. Abarca jovens e adultos em uma história que usa a fantasia para refletir a realidade, sem rodeios e sem que nos poupe da dor que também faz parte da vida.

As atuações são memoráveis e predominantemente femininas. A narração, também em uma voz de mulher, dá o tom de cotação de histórias, dessas que passam por gerações e povos até se perder no tempo.

As referências à história dos Irmãos Grimm aparecem a cada momento, mas todas são reconstruídas, o que torna a história contada no palco outra. A partir da morte da mãe de Sandra, a Cinderela do espetáculo, Pommerat é brilhante a nos apresentar a culpa e a dor de uma garotinha que não sabe como lhe dar como a perda. Dando vida para pesadelos ao placo, essa Cinderela tem como fio condutor uma filha em busca permanente da memória da mãe.

Ao contrário do conto original, a força é das mulheres. O pai de Sandra e o príncipe são os elos fracos. Um pai dominado pela madrasta e um menino-rei que também sofre com uma mãe ausente. E ele que entrega o sapatinho a ela, em um sinal claro que os tempos são outros. Com os contornos de Pommerat, o conto ganha outra dimensão. Muito além de ser passado para o século XXI, ou qualquer outro século, traz gênero, morte e conceito de família para o palco.

Entre os méritos, além de luz, cenário e trilha indispensáveis para o andamento da narrativa, o texto bem construído, recheado de ironias que se alternam a momentos de humor, faz a plateia sentir o terror, o drama, a graça e a fantasia em uma mistura genial de sensações. Pommerat consegue pegar elementos simples para dar graça e sentindo a sua Cinderela. É o sapatinho, a ambição da madrasta, a graça da fada madrinha…. que constroem uma Cinderela além de qualquer paradigma. Um ato de coragem, capaz de reunir a família no real sentido da reflexão de que o teatro é capaz.

Saiba mais sobre a Mostra Internacional de Teatro (MITsp) aqui.

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!