Monólogo retrata o universo de Jorge Luis Borges

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Eu vi o Sol brilhar em toda a sua glória"Em Eu vi o Sol brilhar em toda a sua glória, João Paulo Lorenzon criou e protagoniza o espetáculo baseado na obra e vida do escritor argentino

SÃO PAULO – João Paulo Lorenzon acaba de estrear no SESC Consolação, Espaço Beta, o monólogo Eu vi o Sol brilhar em toda a sua glória, seu segundo trabalho que tem como cerne o universo do escritor argentino Jorge Luis Borges. Em 2008 o ator encenou Memória do Mundo, que focava a solidão como fonte de prazer e criatividade. Desta vez, Lorenzon se dedicou durante dois anos à pesquisa sobre a vida e a obra de Borges e no monólogo, baseado em imagens de contos, poemas e dados biográficos do escritor argentino, ele propõe uma reflexão sobre a memória e o esquecimento, a luz e a cegueira, o sonho e a realidade, sobre as perdas e, principalmente, sobre a vida e a morte, temas bem comuns ao universo borgeano.

Ao entrar na sala de espetáculos, o espectador é conduzido a experimentar sensações; na penumbra, as pessoas precisam caminhar entre blocos de concreto até chegar às cadeiras. A pouca iluminação, em seguida, é apagada para que o ator inicie sua fala. O breu coloca o espectador na mesma condição da cegueira, que Borges vivenciou durante anos, até sua morte. Fiz questão de fechar os olhos para intensificar a experiência proposta pela montagem: a poesia e o clima de introspecção do autor calam fundo graças à voz potente e expressiva de Lorenzon.

‘Sonhamos com o que esquecemos’

O texto criado pelo ator — que recebeu a supervisão do crítico literário Davi Arrigucci Jr — é baseado nos contos A Escrita do DeusO ImortalAs Ruínas Circulares. Além de viver Borges — a cena em que ele de bengala vai tateando os blocos de concreto do cenário emociona —, Lorenzon interpreta personagens criados pelo escritor:

“Este homem no palco pode ser Borges, mas também seu personagem, assim como os outros que virão: Beatriz, Argos, o troglodita ou Demócrito de Abdera, todos presentes na obra do escritor”, explica o ator.

A profundidade da obra borgeana e o vigor com que Lorenzon imprime em casa cena atingem o espectador de maneira avassaladora.

A iluminação, assinada por Lúcia Chedieck, funciona como elemento intrínseco à narrativa. Outro destaque é a trilha sonora de Manuel Pessoa que contribui para compor o clima do universo de Borges.

Eu vi o Sol brilhar em toda a sua glóri

No entanto, João Paulo Lorenzon merece todos os louros. Em Eu vi o Sol brilhar em toda a sua glória o ator é o responsável pela pesquisa, criação do texto e pela interpretação visceral e envolvente. Saí do espetáculo muito impactado e precisei redigir, ainda no teatro, algumas referências para esta resenha. O espetáculo permanece em cartaz até o dia 25 de junho, não perca!

‘Nós somos o que perdemos’.

Roteiro:
Eu vi o Sol brilhar em toda a sua Glória
. Inspirado no universo de Jorge Luis Borges. Criação e concepção: João Paulo Lorenzon. Codireção: Karim da Hora. Desenho de luz: Lúcia Chedieck. Operação de luz: Tomate Saraiva. Música original: Manuel Pessoa. Produção executiva: Fernanda Bianco.  Fotografia: Maurizio Mancioli

Serviço:
SESC Consolação – Espaço Beta – 3º andar (50 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234 3000. Horários: segundas e terças, às 21h. Ingressos: R$ 10,00; R$ 5,00 (usuário matriculado, maiores de 60 anos, estudantes, professores da rede pública de ensino) e R$ 2,50 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculados). Duração: 50 minutos. Classificação: acima de 14 anos. Temporada: até 25 de junho.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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