Resenha: última apresentação do solo em versão digital de Luccas Papp

EM REDE – Depois de escrever e atuar em dois espetáculos de grande impacto, O Ovo de Ouro e O Canto de Ninguém, o ator e dramaturgo Luccas Papp também adere à iniciativa de retomar as atividades teatrais em plena pandemia da Covid-19. Ele apresenta até o próximo sábado, dia 26/09, seu monólogo A Ponte em versão digital. Sozinho, do palco do Viga Espaço Cênico, ele transmite a peça pela plataforma ZOOM. Com ingressos adquiridos pelo Sympla, os espectadores acompanham tudo de casa. Com direção assinada em parceria entre Luccas e seu irmão Matheus Papp, a trama revela o drama do cantor e compositor Doni Gatt, que, em crise existencial depois de um desentendimento com uma fã, resolve chamar o público para uma live. E para surpresa geral anuncia que irá se suicidar, na frente do público, depois de cumprir uma lista com seus últimos desejos.

Como o tema central da peça é o suicídio, a opção de Luccas de encenar o espetáculo em pleno mês de setembro não poderia ser mais adequada. É que desde 2014 que a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina definiram Setembro Amarelo como mês de prevenção ao suicídio — de acordo com dados oficiais, são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo.

A peça começa com a chegada do jovem Doni em uma ponte, onde ele instala o computador e inicia a transmissão. De cara ele avisa qual é a sua intenção, mas diz que irá pular só depois que um número grande de pessoas estiver conectado à live. Convicto do suicídio, Doni relata o que mais o deixou triste e depressivo: depois de um show com uma plateia quase vazia, ele vai jantar e aí se recusa a tirar uma foto com uma fã. Isto bastou para que ele fosse vítima de cancelamento — restrito ao ambiente digital, o cancelamento é uma espécie de linchamento público, sem que a pessoa possa de defender.

A todo o momento de seu relato, Doni verifica quantas pessoas estão conectadas. E à medida que vai cumprindo seus desejos — comer algo agradável, ouvir uma velha canção e cantar sua nova composição —, ele se mostra ainda mais depressivo, carente e só.
“O espetáculo é reflexivo, crítico e, dentre diversas temáticas, aborda a cultura do cancelamento, a depressão e suas sequelas, o perdão e principalmente a oportunidade de se reinventar. A peça é um grito de liberdade em um momento em que estamos presos não só em nossas casas, mas em nossos próprios fantasmas e culpas”, argumenta Luccas Papp.

Como outros espetáculos teatrais transmitidos pela internet, A Ponte também requer ajustes técnicos. Como não é teatro, mas também não é cinema e nem vídeo ou telenovela, há problemas de adequação com iluminação, som e direção de movimento. No entanto, Luccas Papp, com sua interpretação visceral, imprime verdade ao mostrar um jovem artista ferido na alma, carente e extremamente solitário. O público, mesmo sabendo do anunciado desfecho do personagem, se surpreende com o final da trama. Confira.

Roteiro:
A Ponte. Texto, concepção e interpretação: Luccas Papp. Direção: Luccas Papp e Matheus Papp. Trilha sonora original: Luccas Papp e Gabriel Silva. Iluminação: Gabriele Souza. Fotografia, direção de arte e vídeo: Fernando Maia. Produção: LPB Produções.
Serviço:
Viga Espaço Cênico/ transmissão on line pela plataforma ZOOM. Horários: sábado às 19h. Ingressos: https://www.sympla.com.br/lpbproducoes. Duração: 60 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 26/09/20.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil