MONTAGEM DE CLÁSSICO DE LORCA BUSCA APROXIMAR A ESPANHA DOS ANOS 1930 AO BRASIL CONTEMPORÂNEO

SÃO PAULO – Se assim como eu, você está curioso em saber como o Coletivo Inominável busca traçar um paralelo entre a Espanha de 1936, ano em que está situada A Casa de Bernarda Alba, clássico do poeta e dramaturgo Federico García Lorca, com o Brasil de hoje, deve se dirigir à Sala Piscina do Viga Espaço Cênico o mais breve possível já que a temporada é curta – sábados e domingos até o final do mês – e são apenas 40 lugares por sessão.

“As agudas percepções de Lorca sobre a moralidade, o papel da mulher na sociedade, as dinâmicas de poder (seja num contexto familiar ou empregatício), a liberdade individual versus o status coletivo, o desejo, o sexo e a morte permanecem pertinentes até os dias de hoje, décadas após a criação do texto, justificando o interesse do Coletivo em compará-lo à sociedade brasileira atual. Num país em que o corpo da mulher segue objetificado, a cultura do estupro permanece enraizada, a discrepância de salários e oportunidades profissionais entre homens e mulheres é gritante, a religião e a moral seguem como mecanismos de castração das vontades individuais, o texto de Lorca, que trata de um grupo de mulheres vivendo presas numa casa em luto se mantém como instrumento de reflexão sobre as tensões da sociedade vigente”, fala o diretor da peça, Fernando Pivotto.

Situada na casa em que Bernarda Alba impõe um luto de oito anos, e de onde ninguém poderá sair ou onde ninguém poderá entrar, em honra à morte do patriarca, a trama foca nas relações das filhas e empregadas de Bernarda entre si, com a matriarca, e com o vilarejo onde moram.

“Um dos pilares sobre o qual o espetáculo é construído, a figura feminina, é garantido pela presença constante de mulheres na equipe criativa: mulheres cisgênero e drag queens se apropriam do texto e ampliam o alcance das reflexões sobre o que é ser mulher e o que é performar a feminilidade no Brasil de agora. Questões sobre a liberdade sobre o próprio corpo, o olhar do outro, as cobranças da sociedade (juventude, beleza, casamento, filhos) e a força do feminino que resiste a uma sociedade machista foram pontos em comum trazidos pelo elenco e dão lastro à montagem”, comenta.

A plateia também é inserida no jogo cênico, disposta em semi-arena próxima à área cênica, sendo ao mesmo tempo cúmplice e captora dos personagens em cena.

O projeto é feito sem leis de incentivo à cultura ou outras formas de patrocínio, com dinheiro injetado pelo próprio Coletivo e tendo como parceiros o centro de acolhida LGBT e ponto cultural Casa 1 e o Núcleo Educatho, parceiros que se uniram à empreitada por sua proximidade com os temas abordados e cederam espaço para ensaio ao longo dos oito meses de processo.

FICHA TÉCNICA

Texto Federico Garcia Lorca

Direção Fernando Pivotto

Desenho de Luz Larissa Kalusinski

Figurino Maria Celina Gil

Elenco Alexia Twister, Beatriz Cugnasca, Carolina Froes, Fabi Carvalho, Marilia Machado, Nina Ramoz, Rayssa Randi, Renata Flores

Produção Cezar Zabell e Maria Celina Gil

A Casa de Bernarda Alba

De 07 a 29 de outubro. Sábados às 21h e domingos às 19h

Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323. Pinheiros – São Paulo

Ingresso: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada)

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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