Montagem inédita coloca romance de Albert Camus em cena

Guilherme Leme apresenta adaptação de "O Estrangeiro", de Camus

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Guilherme Leme é o protagonista do monólogo “O Estrangeiro” e divide a direção com Vera Holtz

Com inúmeras atrações na cidade, como a Bienal Internacional de Artes, a Mostra Internacional de Cinema, o Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual, além de filmes concorridos em cartaz (“Tropa de Elite 2”, por exemplo), o público paulistano não pode deixar de assistir, no Teatro Eva Herz, à inédita montagem do clássico romance francês “O Estrangeiro”, de Albert Camus, com Guilherme Leme, que divide a direção com Vera Holtz e é o protagonista da peça.

Com uma linguagem direta, Meursault, um funcionário discreto que vive na cidade de Argel nos anos 1940, narra sua trajetória de vida com objetividade. Numa cadeira giratória, o ator está de camiseta e cueca brancas e à medida que relata sua experiência vai se vestindo. Aos poucos o espectador entende que ele vivia com a mãe e por necessidade precisou colocá-la no asilo.

Ao saber de sua morte, Meursault vai ao enterro e a partir daí sua vida se transforma. O próprio autor afirma que todo o “homem que não chora no enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte”. E o personagem, para Camus, não joga o jogo, é estrangeiro à sociedade em que vive.

Foto de André Gardenberg para "O Estrangeiro"

Em seguida ao enterro da mãe, é envolvido num crime e levado a julgamento. É condenado muito mais pelo fato de não ter chorado a perda da mãe do que propriamente pelo crime de assassinato.

O essencial do personagem é exatamente isso: não mente sobre seus sentimentos, não mascara suas emoções. No tribunal isso o leva à pena capital: “a sociedade se sente ameaçada”, como afirma o autor.
Transpor para o teatro um romance já é uma tarefa árdua; quando se trata de um clássico como “O Estrangeiro”, isso requer ainda mais responsabilidade. Mas o trabalho de adaptação de Morten Kirkskov e a tradução de Liane Lazoski são primorosos.

Quem desconhece a história, consegue, assistindo a montagem, debruçar-se sobre esta obra de Camus.

Destaques ainda para a sutileza da cenografia de Aurora dos Campos e a iluminação precisa de Maneco Quinderé.

No entanto, os maiores méritos ficam mesmo para Guilherme Leme. O ator modula sua voz e não só diferencia os demais personagens da narrativa (o diretor e o guarda do asilo, o promotor e seu advogado, a amada e o amigo) como mostra os diversos sentimentos de Meursault, da apatia e perplexidade diante das circunstâncias à euforia diante do mar, das estrelas e da amada. O paradoxal do personagem é escancarado com a performance de Leme, que vive sem dúvida um grande momento da carreira. E o brilho de sua atuação só é evidenciado graças à generosa direção da amiga Vera Holtz.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

3 Comentários
  1. texto maravilhoso! vale a pena mesmo conferir e não esquecendo que é a ultima semana!!! então é melhor correr e garantir seu assento! a atuação do Guilherme é magnifica!
    todos os envolvidos no projeto estão de parabens!

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