ARTIGO: MORRERAM MARÍLIA PÊRA

Luís Francisco Wasilewski, do Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)

Marília Pêra em "Alô, Dolly"
Marília Pêra em “Alô, Dolly”

 

RIO DE JANEIRO – Quando fui acordado com a notícia da morte de Marília Pêra senti uma tristeza estranha. Chamo- a de estranha, porque não choro apenas a morte de uma das maiores atrizes de toda a história do teatro brasileiro, mas também a perda de uma intérprete e diretora que fez parte de minha formação como espectador teatral.

Assisti Marília pela primeira vez em Elas por Ela, em 1991. Eu tinha doze anos. No espetáculo ela interpretava as grandes cantoras brasileiras. E por causa do fascínio que o espetáculo me suscitou, virei fã de Aracy Cortes, Linda Batista e Carmen Miranda, cantoras que eram homenageadas no Musical. Depois a vi como a fracassada e hilária cantora lírica Diva Bustamente em A Prima Dona, de Alcione Araújo. Até a sua morte a assisti representando a tirana professora de Apareceu a Margarida, Maria Callas em Master Class, Geni de Toda Nudez Será Castigada, Chanel em Mademoiselle Chanel, Florence Foster Jenkins em Gloriosa e sua última atuação no teatro interpretando Dolly Levi em Alô, Dolly. Sem exagerar, devo ter visto Alô, Dolly nove vezes. A cada sessão que assistia ficava fascinado pelo domínio que ela tinha de seu ofício. A cena na qual explicava a Horácio Vandergelder (interpretado por Miguel Falabella) sobre o homem que tinha morrido envenenado por ter tomado uma sopa, se transformava em uma aula de comédia graças à genialidade da atriz. Eu revi diversas vezes o espetáculo, porque sabia que em cada apresentação a faísca de gênio de Marília me traria novos arrebatamentos.

Foi também a diretora de O Mistério de Irma Vap com Marco Nanini e Ney Latorraca, montagem que está no panteão das grandes encenações que assisti. No cinema a cena em que ela dá de mamar para Fernando Ramos da Silva em Pixote, A Lei do Mais Fraco me emociona até hoje. E como esquecer da hilária Rafaela Alvaray de Brega & Chique, de Juliana em O Primo Basílio e da Darlene de Pé na Cova, que está atualmente no ar?

Por isso, peço licença ao grande poeta Carlos Drummond de Andrade, que na ocasião da morte de Cacilda Becker escreveu: ”A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker”. No dia de hoje, a morte também emendou a gramática. Morreram Marília Pêra.