MTPAG 2013: Em busca da identidade cultural

Michel Fernandes é colaborador especial do Projeto Ademar Guerra (michel@aplausobrasil.com

"Memórias de Sant'Anna"
“Memórias de Sant’Anna”

GARÇA (SP) – Dois dos espetáculos apresentados na Mostra de Teatro Ademar Guerra, Memírias De Sant’Anna e Atos de Rua, tiveram como protagonista do tema a que se propõem trabalhar um mergulho em suas raízes mais profundas para dali extrair a seiva que alimenta sua identidade cultural. O espetáculo de São José dos Campos, Memórias de Sant’ Anna, abriu a Mostra e evocou histórias, cânticos, ritos, entre outros, sobre Sant’ Anna, bairro culturalmente fértil do Vale do Paraíba.

O Mestre Fernando Pessoa nos aconselha a falar sobre nossa própria aldeia para, assim, falar sobre todo o universo, que parece ser conselho seguido pela Cia. Cultural Velhus Novatos que derrapa nos sedutores, e por isso mesmo perigosos, efeitos plásticos – cenografia, adereços, iluminação, belcanto etc.  – tornando redundante o que poderia ser simplificado.

Redundar pode desviar o foco e o espectador se preocupar com o que não teria a múnima importância e negligenciar o que seria imprescindível de se ver. Quando o polonês Jerzy Grotowski equipara a função do diretor como “espectador de profissão”, quer dizer que entende como uma das funções do diretor ajudar o espectador na condução do que se vê em  cena e em Memórias de Sant’ Anna o excesso de informações desnorteia tanto o público que se cansa com o novelo imenso de informações que não se conectam e, também, os artistas que negligenciam aspectos básicos como a dicção e a lida com os instrumentos musicais,  entre outros detalhes.

Contudo, discordo – em absoluto – com o que disse um espectador durante o debate que ocorre logo após a apresentação, prática comum no projeto: o que é dito pelos profissionais convidados a debater – Alexandre Dal Farra, Cláudio Mendel e Sonia Azevedo, mediados pot Sérgio Ferrara, curador artístico do Projeto Ademar Guerra – não é para deixar o artista “desanimado”, conforme foi dito, mas são orientações com objetivo pedagógico, estabelecer um diálogo entre o que o projeto do grupo propõe e que, de fato, ele comunica.

 

Quando Athos não comunica

ademargarçaO que move um espectador a cruzar a porta de sua casa, assistir a uma representação e sentir que valeua pena o mínimo gesto que fez? Alguns podem defender a hipótese de que buscam na obra algo reflexivo, que vá além do mero prazer, outros procuram apenas por diversão instantânea. Contudo o  ato teatral só se concretiza quando se estabelece comunicação, seja lógica ou sensorial e Atos de Rua, do Grupo Teatral Athos (Batatais), embora tenha apresentado apenas um curto fragmento de sua pesquisa, não atinge a comunicação lógica – segundo o material de divulgação o objeto é presentificar a história da fundação de Batais, por meio de documentos oficiais ou não, e sobre a saga dos bandeirantes; no que diz respeito à sensibilização, o fragmento está confuso para capturar o espectador.

Há alguns apontamentos a indicar algo de interessante quanto à forma com que desenvolvem o trabalho, resta dar algo de sólido em relação  ao desenvolvimento temático para que a trupe avance os umbrais da confusão.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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