MTPAG 2013: O vigoroso resgate da dramaturgia marginal de Zeno Wilde

Michel Fernandes é colaborador especial do Projeto Ademar Guerra (michel@aplausobrasil.com)

 

"Um Pequeno Animal Selvagem", de São José do Rio Preto
“Um Pequeno Animal Selvagem”, de São José do Rio Preto

GARÇA (SP) – Muito antes dos temas sociais chegarem às telas do cinema e da televisão, dramaturgos como Plínio Marcos e Zeno Wilde se debruçavam em retratar personagens que habitavam o submundo, seres marginalizados que, na maior parte das vezes, só encontram sentido no crime. A densidade direta e cortante da obra de Zeno (Blue Jeans, Uma Lição Longe Demais, Salve o Prazer!, O Meu Guri, entre outros textos), um dos principais nomes da dramaturgia brasileira dos anos de 1980, é revigorada em Um Pequeno Animal Selvagem, com a  cia rio-pretense Os Cogitagores, sob direção de Ricardo Matioli.

Já conhecia o brilhante trabalho de Ricardo Matioli como iluminador, mas em Um Pequeno Animal Selvagem ele consegue se superar: ao imprimir um tom carregado à cena, dá a claustrofobia necessária ao ambiente em que vivem seres sem perspectivas, acuados pela norma estabelecida, tão entregues à rotina da urgência que nem sobra espaço para avaliar as consequências das repercussões de seus atos.

"Um Pequeno Animal Selvagem", de São José do Rio Preto
“Um Pequeno Animal Selvagem”, de São José do Rio Preto

Matioli conduziu com  mão certeira a ambientação, mas priorizou o elemento mais poderoso de textos deste calibre: abriu espaço para que os intérpre tes se lançassem nm mergulho profundo e despudorado ao epicentro desses seres marginalizados – no sentido de quem está à margem do  status quo social –, seres que deixam falar mais alto seu instinto, seu animal selvagem, que dita regras relativas tanto à satisfação sexual quanto ao instinto de sobrevivência que renega a opressão, mesmo que ela  venha de um lugar tão sujo de lama quanto o que ele está.

Para o sucesso da proposta, o diretor precisava de interpretações viscerais, os atores Alison Bernardes, Giovani Milani, Matheus Leonel e Lawrence Garcia são os ingredien tes que fazem pulsar, com talento, na pele de seus personagens.

O feixe desse maiúsculo Um Pequeno Animal Selvagem está nas diversas habilidades artísticas de Ricardo Matioli que,  além da direção e iluminação, assina a belíssima trilha – a nostalgia e desalento do acordeão de Yann Tiersen é belo achado  -, figurinos e cenário, esses dois últimos em conjunto com o grupo.

Em suma, Um Pequeno Animal Selvagem é um espetáculo que  está pronto para as exigências da capital.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

1 comentário

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*