Na crista da onda

Maria Lúcia Candeias, especial para o Aplauso Brasil

Peça mostra encontro póstumo entre Anna da Cunha, Dilermando de Assis e Euclides da Cunha
Peça mostra encontro póstumo entre Anna da Cunha, Dilermando de Assis e Euclides da Cunha

Quando Antônio Rogério Toscano escreveu Piedade, atualmente em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, de quarta a sábado às 19h30, e aos domingos às 18h, queria relembrar a história de Euclídes da Cunha, que morreu há exatos cem anos, e o faz com muito brilho, mas provavelmente não sabia que a história é teatralmente tão oportuna.

No último semestre, várias peças de grupos jovens, entre as quais destacaria Festa de Separação, tratavam da triste descoberta de que o amor acaba. Não é eterno como nos contos de fada que terminam em geral com um “foram felizes para sempre”. Está mais pra Vinícius de Moraes quando escreveu “não que seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

Durante o absolutismo quem escolhia os cônjuges, como é sabido, era o pai. Os casamentos tinham como base o interesse e não o amor. Com a revolução burguesa, os jovens passaram a se escolher e então todos acreditaram que o amor seria eterno. Não é bem isso que a história vem mostrando. Era o que o triângulo amoroso no qual nosso grande autor se envolveu acreditava. O amor era um só. E se o segundo amor era maior era porque o primeiro não era amor e não porque a mulher menos inocente e com mais carências sentia emoções com maior intensidade. Enfim, as crenças e envolvimentos das personagens de Toscano são as raízes das quais brotaram a dramaturgia dos grupos jovens que não deveriam perder Piedade.

<i>Piedade</i> celebra dez anos da <i>Cia. Bendita Trupe</i>
Piedade celebra dez anos da Cia. Bendita Trupe

Não que a peça não toque profundamente o espectador menos jovem, é escrita de maneira muito poética que envolve a platéia com sua delicadeza. Não se trata de uma biografia fiel. É uma bela ficção originária de mãos competentes que poderia ter se passado na terra, no purgatório ou até no limbo como a exótica cenografia de Marcelo Larrea parece sugerir com seus tons acinzentados e cor de vinho, que emolduram o espetáculo com poesia semelhante a da peça. O mesmo pode ser dito dos figurinos de Marina Reis que vestem bem os atores. Falando neles, não há como não concluir que as maravilhosas interpretações dos três é o segredo de tanta empatia.

Leopoldo Pacheco como sempre irretocável dá conta de Euclides com maestria. O mesmo pode ser dito de Jacqueline Obrigon que interpreta sua esposa. Daniel Alvim também dá conta, com êxito, ao amante.

É claro que todos esses acertos seriam impossíveis sem as mãos experientes da diretora, Johana Albuquerque, que contou ainda com a arte de Pedro Birenbaum na trilha sonora e Lúcia Chedieck na iluminação.

Você não deve perder, ainda mais agora que as vans estão de volta. Você vai com ela do estacionamento que há na esquina da Consolação com São Luiz (acesso pela Consolação, antigo Zarvos) até a porta do teatro e volta até o carro desembolsando dez reais.

Não deixe de ver é pra lá de bom.

Ficha Técnica

Patrocínio: Banco do Brasil / Realização: Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo / Texto: Antônio Rogério Toscano / Direção Geral: Johana Albuquerque / Elenco: Leopoldo Pacheco, Jacqueline Obrigon e Daniel Alvim / Cenário: Marcelo Larrea / Figurinos: Marina Reis / Iluminação: Lucia Chedieck / Trilha Sonora: Pedro Birenbaum / Fotos: Maria Clara Diniz / Designer gráfico: Cláudio Queiroz / Produção Executiva: Stella Marini / Gerência de Produção: José Maria Pereira Jr / Direção de Produção: Cia. Bendita Trupe (Johana Albuquerque e Jacqueline Obrigon)

PIEDADE

Temporada: Até 21 de março.

Horário: Quarta a sábado, às 19h30, e domingo, às 18h

Local: Teatro do CCBB (125 lugares)

Duração: 70 minutos.

Classificação Indicativa: 14 anos

Ingresso: R$15,00 e R$7,00 (meia-entrada para estudantes, professores, correntistas do Banco do Brasil e maiores de 60 anos)

Horário da bilheteria: de terça a domingo, das 10h às 20h.

Informações: (11) 3113-3651 ou 3113-3652

www.bb.com.br/cultura

Ingresso antecipado: www.ingressorapido.com.br / (11) 4003-1212

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo

R. Álvares Penteado, 112, Centro

Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô

11 3113 3651 / 11 3113 3652

www.bb.com.br/cultura

www.twitter.com/ccbb_sp

Acessos – Estações Sé e São Bento do Metrô. Praças do Patriarca e da Sé.Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física// Ar-condicionado // Loja // Cafeteria Cafezal

Estacionamentos – Opções de estacionamentos particulares na Rua Boa Vista, Rua Senador Feijó e Rua Libero Badaró. Confirmar dias e horários de funcionamento.

Estacionamentos Conveniados

Jockey Club – Rua Boa Vista, 280

(R$ 10,00 pelo período de 4 horas. Necessário carimbar o ticket na bilheteria do CCBB).

Informações: (11) 3241-5433

Estapar Estacionamentos

Rua da Consolação, 228 (Edifícos Zarvos)

(R$ 10,00 pelo período de 5 horas. Necessário carimbar o ticket na bilheteria do CCBB).

Informações: (11) 3256-8935

Van faz o transporte gratuito até as proximidades do CCBB – embarque e desembarque na Rua da Consolação, 228 (Edifício Zarvos) e na XV de novembro, esquina com a Rua da Quitanda, a vinte metros da entrada do CCBB.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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