Nas Quebradas de Plínio Marcos

Resenha e homenagem de Luis Fabiano Teixeira, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

<i>Plinio Marcos Brutal</i>, quadro de Luís Fabiano Teixeira
Plinio Marcos Brutal, quadro de Luís Fabiano Teixeira

 

Dia 19 de novembro fez dez anos que perdemos um dos dramaturgos mais sensíveis à realidade brasileira: Plínio Marcos. Em Santos, sua cidade natal, várias homenagens marcaram o dia, mas nenhuma delas pode substituir a experiência única que é ler qualquer texto do Plínio. Principalmente pela abordagem original de suas histórias, indignação diante de um mundo cada vez mais cruel e resistência a toda forma de perseguição. As Histórias das Quebradas do Mundaréu (1976), selecionadas, organizadas e revisadas pela atriz Walderez de Barros, estão aí para provar que ele não só foi o precursor da “literatura marginal” no Brasil como também continua sendo o seu maior expoente.

Mesmo em se tratando de narrativas curtas, a linguagem do livro vai além do apuro técnico, é uma imersão sem volta ao universo codificado da marginalidade e dos menos favorecidos. Se por um lado o autor economiza palavras, por outro esbanja tipos dos mais variados: assaltantes, homossexuais, prostitutas, macumbeiros, sambistas, jogadores de futebol e toda sorte de trambiqueiros. Por isso a organização dos capítulos por tema é menos uma preocupação estética que de funcionalidade.

O distanciamento dessa elite que tem sempre lugar de destaque nas telenovelas e revistas é o que há em comum entre todos os personagens. Conscientes de que fazem parte de um “mundo-cão”, mas sem se revelarem na condição de vítimas, eles possuem suas próprias leis e se orgulham disso, como sugere o trecho de Mulher de Vagau Sabe das Coisas: “Enterra ele e esquece a gente, que fica tudo por isso mesmo. Mas, se tu for boca-mole como ele e der nossa ficha pros tiras, pode contar que a gente te manda também pro beleléu. Tchau”. Nas “quebradas do mundaréu” a morte passa a ser justificativa para qualquer fim, mas nem é preciso recomendar ao leitor estômago forte, já que, lamentavelmente, o derramamento gratuito de sangue já foi incorporado ao nosso cotidiano. E Plínio Marcos não inventou nada disso, apenas fez ecoar a existência dessa triste realidade.

Entre a dureza da maioria dos contos há espaço também para o riso, que pode vir frouxo ou não. Há, por exemplo, tiradas deliciosas em Dois Times Sem Jogo, onde dois times de futebol trocam ofícios repletos de “pérolas” gramaticais: “Nós vem por essa mal-traçada linha chamar vocês aí pra jogar no campo da gente uma partida de futebol no domingo, que a gente só joga nesse dia, que nos outro a gente trabalha”. Cada time responde de forma mais engraçada que o outro, chegando a um bate-boca protocolar hilariante. Alguma provocação à Censura? Provavelmente. “Fui perseguido pela Censura. Mas fiz por merecer” – declaração do autor que tinha fama de encrenqueiro.

Histórias das Quebradas do Mundaréu não pretende ser um guia prático para entender a nossa miséria, mas a torna visível sem nenhum disfarce. E cada um que tire as suas próprias conclusões, porém, sabendo que nunca poderemos resolvê-la, à distância.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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