Artigo: Nathalia Timberg encena pela primeira vez texto de Samuel Beckett

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

TRÍPTICO SAMUEL BECKETT
TRÍPTICO SAMUEL BECKETT

Com direção de Roberto Alvim e ao lado de Juliana Galdino e Paula Spinelli, a veterana atriz acaba de estrear no CCBB-SP Tríptico Samuel Beckett, montagem que reúne três peças do dramaturgo irlandês

SÃO PALO – Logo após finalizar as gravações da telenovela Amor à Vida, Nathalia Timberg não descansa e já está no palco. Desta vez para uma proposta ousada e instigante: encarar pela primeira vez um texto de Samuel Beckett, numa parceria com a companhia experimental Club Noir, liderada pelo diretor Roberto Alvim. Tríptico Samuel Beckett, em cartaz no CCBB-SP, reúne três novelas do dramaturgo irlandês escritas no final de sua vida (ele faleceu em 1989) e inéditas no Brasil: ‘Para o Pior Avante’, ‘Companhia’ e ‘Mal Visto Mal Dito’.

Na montagem, uma mulher em três fases da vida — infância vivida por Paula Spinelli, maturidade na pele de Juliana Galdino e velhice, interpretada por Nathalia — relata toda uma gama de sentimentos, revelando sua perplexidade diante da vida, com medos, anseios, dores e incertezas. Com pouca ou nenhuma luz, as três atrizes permanecem no palco e não dialogam, o que induz ainda mais a reflexão do espectador:

“Esta peça não acontece no palco, mas sim no espaço mental/sensível de cada um dos presentes na plateia”, argumenta o diretor Roberto Alvim.

TRÍPTICO SAMUEL BECKETT
TRÍPTICO SAMUEL BECKETT

Ao entrar na sala de espetáculo, o espectador menos atento pode até não perceber, mas as três atrizes já estão no palco, imóveis e quase na penumbra; acionado o terceiro sinal, tudo se apaga e uma pequena luz recai sobre Juliana Galdino, que dispara o brado do autor para se caminhar, ir adiante (da novela Para o Pior Avante), mesmo sem saber como fazer esta caminhada. Em seguida, com o texto Companhia, Paula Spinelli transmite a incompreensão de uma criança diante da morte e por último Nathalia, com Mal Visto Mal Dito, revela como aquela mulher implora pelo fim da vida.

“A peça acontece no espaço mental dessa mulher, em que as três idades coexistem. As cenas são norteadas pela voz humana e, a partir disso, o público constrói as imagens e sensações”, diz o diretor, que assina também a iluminação e cenografia do espetáculo.

Os três textos reunidos na montagem sintetizam a visão de mundo de Samuel Beckett e, de acordo com o diretor, representam seu testamento artístico.

“É no mar do inconsciente que o escritor navega, é por este mar que Beckett nos conduz e é nestas águas que ele nos afoga. Navegamos hoje por este descaminho, rota sem norte, que permanece como o grande ultimato a toda ideia de sentido. Não se trata aqui do que nós faremos com Beckett, mas sim do que Beckett fará conosco, homens do século XXI”, arremata Roberto Alvim.

A cada trabalho na Cia Club Noir Roberto Alvim vem intensificando sua proposta experimental e minimalista de dramaturgia. Para quem já o conhece de outras montagens — 45 Minutos e A Construção estreladas por Caco Ciocler e Invasor(es) com Joca Andreazza e Paula Cohen — sabe de sua proposta cênica. Para quem desconhece o trabalho do diretor, vale a pena conferir Tríptico Samuel Beckett e constatar que a iluminação difusa e os poucos elementos cênicos (mínimo cenário e trilha sonora incidental) provoca o espectador e o induz a refletir profundamente sobre a trama. E ser agraciado com o talento e o vigor em cena de Nathalia Timberg é ainda mais gratificante.

O espetáculo permanece em cartaz até 14 de abril, não perca!

 Roteiro:

Tríptico Samuel Beckett. Texto: Samuel Beckett. Direção, tradução e adaptação: Roberto Alvim. Elenco: Nathalia Timberg, Juliana Galdino e Paula Spinelli. Trilha sonora original: LP Daniel. Cenografia e iluminação: Roberto Alvim. Figurinos: Juliana Galdino. Assistente de direção: Ricardo Grasson. Produção executiva e coordenação administrativa: Maria Betania Oliveira. Registro em vídeo: Edson Kumasaka. Fotografias: Daniel Seabra. Programação visual: Felipe Uchôa.
Serviço:

Centro Cultural Banco do Brasil (125 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, tels. (11) 3113-3651/ 3113-3652. Horários: sábado e segunda-feira às 20 horas e domingo às 19 horas. Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Duração: 60 minutos. Classificação: 16 anos. Temporada: até 14 de abril.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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