Nise da Silveira- Senhora das Imagens agora em São Paulo

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Nise da Silveira", com Mariana Terra. Foto - Jackeline Nigri

Espetáculo multimídia — une teatro, dança, música, vídeo e artes plásticas — acaba de estrear depois de sucesso pelo país. Com direção de Daniel Lobo, Mariana Terra vive a médica alagoana que revolucionou psiquiatria no século XX

SÃO PAULO – Ao entrar na sala do Teatro Eva Herz, o público já é envolto no clima do espetáculo Nise da Silveira- Senhora das Imagens. Quase na penumbra, as pessoas procuram seus assentos enquanto a atriz Mariana Terra está na plateia pintando quadros, numa referência direta aos trabalhos dos pacientes do hospício em que a médica Nise da Silveira trabalhou no Rio, nos meados do século XX. Com seu método revolucionário — implantou ateliês de pintura no tratamento da esquizofrenia em oposição à terapia de eletrochoque — Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, que está completando 60 anos e foi o mote para a montagem.

Com passagens por Brasília, Alagoas, Espírito Santo e de grande sucesso no Rio, Nise da Silveira- Senhora das Imagens estreou nesta semana na cidade. Após breve rito budista entre diretor e atriz (a troca de energia para que tudo saia como o previsto), ouve-se em off a voz do inconsciente, interpretada por Carlos Vereza (também dá voz ao psicanalista Carl Jung), que anuncia:
“Vai Mariana, pega o cajado, legado de teu pai, e dá vez a voz do coração”. A atriz sobe ao palco para interpretar Nise da Silveira, dos 20 aos 94 anos, e mais uma surpresa: dança coreografias assinadas pela bailarina Ana Botafogo, que pela primeira vez executou este tipo de trabalho, sob a trilha sonora inédita do pianista João Carlos Assis Brasil.

"Nise da Silveira". Com Mariana Terra. Foto de Rafael Viana

Com a finalidade de homenagear a médica alagoana (1905-1999), o espetáculo faz um apanhado de sua trajetória, desde os tempos vividos ao lado dos pais nas Alagoas, passando por sua formação na Bahia e a decisão de se mudar para o Rio, onde com muita dificuldade — mesmo formada, passava mal ao ver sangue —aprofundou seus conhecimentos e estudos da alma humana e conseguiu trabalho Centro Psiquiátrico Pedro II, setor de Terapia Ocupacional. Com formação humanista, Nise se opunha aos métodos tradicionais de tratamento do hospício, o que lhe valeu até uma prisão durante a ditadura Vargas.

“A força daquela mulher  revolucionou a psiquiatria por meio da arte e de um processo mais humanitário de cura, de um olhar para o seu semelhante, que não fosse tão duro, tão científico, mas um olhar de amor e afeto ao próximo”, explica o diretor.

Em vídeo, o poeta Ferreira Gullar e o ator e diretor José Celso Martinez Corrêa explicitam a importância de Nise da Silveira para a psiquiatria e a cultura brasileira. Mariana Terra é sem dúvida o grande destaque do espetáculo, graças ao vigor em dar vida a uma personalidade de tamanha grandeza e sua entrega visceral ao projeto. Destacaria ainda a sensível iluminação de Djalma Amaral e o cenário e figurino, assinados por Ronald Teixeira, muito bem afinados à concepção do espetáculo de Daniel Lobo.

Um único senão: mesmo com uma história de vida tão rica a ser contada, o espetáculo poderia ser mais enxuto e conciso para não desgastar ou cansar o público. Talvez por ter visto na estreia, alguns ajustes ainda acontecerão. Confira: a peça fica em cartaz até o final de março.

Roteiro:
Nise da Silveira – Senhora das Imagens
. Dramaturgia, concepção multimidia e direção: Daniel Lobo. Interpretação e co-dramaturgia: Mariana Terra. Coreografia: Ana Botafogo. Trilha original: João Carlos Assis Brasil. Participações de Carlos Vereza (Carl Jung) e Ferreira Gullar, José Celso Martinez Corrêa, Ednaldo Lucena e Gilray Coutinho (em vídeo). Preparação vocal: Angela Herz. Cenografia e figurino: Ronald Teixeira. Desenho de luz: Djalma Amaral. Percussão: Marco Lobo. Ensaiadora: Inês Pedroza. Edição: Personal Filme (Daniel Trindade) Fotos: Jackeline Nigri.Realização: Essencial Companhia de Teatro.

Serviço:
Teatro Eva Herz (166 lugares), Avenida Paulista, 2.073 – Livraria Cultura / Conjunto Nacional. Quartas e Quintas, às 21h. Ingressos: R$50,00. Meia-entrada para estudantes, idosos, professores da rede pública de ensino e portadores de necessidades especiais

Bilheteria: Terça a sábado, das 14h às 21h. Domingo, das 12h às 19h. Em feriado, sujeito à alteração. Aceita todos os cartões de crédito. Não aceita cheque. Vendas pela internet: www.ingresso.com. Vendas por telefone: 4003-2330. Informações: (11) 3170-4059 – www.teatroevaherz.com.br. Duração: 1h30. Classificação Etária: 16 anos. Temporada: até 29 de março

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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