No Commune a busca certeira do riso secular com “O Mentiroso”

Afonso Gentil, colunista e crítico teatral do Aplauso Brasil

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Verdade seja dita: o Commune é um “coletivo teatral” que nos faz esperar por um futuro promissor para essa invenção de produção nascida – quem sabe – nos círculos escolares de olho nos fomentos. A partir daí, passamos a nos submeter com freqüência assustadora às estripulias (para dizer o menos) transgressoras de boa porção desses coletivos, sempre sob o pretexto de “renovação formal”, mesmo que com o conteúdo ferido mortalmente.

O MENTIROSO - NA FOTO Fernanda Mitaini, Eliane Rossetto - FOTO DE ALICIA PERES


Mas, falemos de O Mentiroso, de  Carlo Goldoni, estudioso da Commedia Dell’ Arte, secular manifestação do riso universal, agora recriada com certeira alegria  e em cartaz no Teatro Commune.

Goldoni ficou com a fama (boa) de ter metodizado as improvisações sem freios dessa arte do riso que se fazia ao ar livre, pela Europa dos séculos 17 e 18, dando a elas feições dignas do teatro sério hegemônico nos palcos de então. Daí a ser preferido pela aristocracia foi um passo tão significativo para a história do teatro quanto a descida do homem moderno à lua. Nascia o classicismo.

Felizmente os cultores do gênero, já visto como “comédia de costumes”, tem se mantido ativos através dos séculos, notadamente no seu berço italiano. Daí a importância do

O MENTIROSO - NA FOTO AUGUSTO MARIN - FOTO DE ALICIA PERES

Commune ao cultuar uma encenação “estilizada e alegórica”, num processo de formação de intérpretes com um pé no clownesco.

Como todo grupo teatral (preferimos assim), o Commune tem na dupla Augusto Marin e Michelle Gabriel seus animadores artísticos, enriquecendo com suas presenças na cena (além de funções variadas e básicas) anos de busca pelo tamanho exato do riso goldoniano.

Há 3 anos, inaugurando seu espaço da Rua da Consolação, a dupla marcou um belo tento com a montagem de Arlecchino. Se não repete inteiramente a boa dose, também não desmerece a confiança por nós depositada em seu trabalho (árduo).

Tentando entender: Marin  repartiu a direção com a veterana e boa atriz Maria Eugênia de Domênico, de formação diversa da dele. O diretor-ator dispensa freios, é inquieto e irreprimível na dose certa para dar vida ao Lélio protagonista, emblemático do “mundo fascinante e embriagador da imaginação” em que se enreda um mentiroso contumaz

O, sempre competente e carismático, ator Carlos Capeletti, como Pantaleão, o pai, mantém permanente e prazeroso duelo cênico com Marin.

O numeroso elenco, embora  com bom preparo físico, não consegue um resultado de alto nível. Mesmo assim sobressai a leveza das intervenções de Augusto Pompeo como o criado Arlecchino.

Os demais elementos (e não menos importantes) da encenação (música e executantes em cena; preparação das máscaras que atravessam o espetáculo; figurinos e luz) se harmonizam na discrição.

Você pode não estar diante do melhor espetáculo do ano e julgamos a equipe estar longe de tal pretensão, mas a espontaneidade criativa que explode do palco pode segurá-lo prazerosamente na platéia.

O Mentiroso/ Teatro Commune / Rua da Consolação, 1218 / fone 3807-0792 /83 lugares / 12 anos / R$30 (inteira) Atenção para os dias e horários:Segunda e Domingo às 20 horas/ Sábado 21 h/ Até 28/fevereiro

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

3 Comentários
  1. Eu discordo levemente desta crítica, eu concordo que não é pretensão dos competentes profissionais dessa peça ser a melhor do ano, mas eles conseguem sim se destacar e a peça vai alem de ser mais uma comedia no nosso cenário atual. A combinação de uma peça secular com um enredo que soa tão atual e também da naturalidade dos atores com a interação com a platéia e a base sonora feita pelos músicos, que me fizeram imaginar um Yann Tiersen italiano, faz dessa peça uma produção memorável.
    Claro, essa é a minha humilde opinião.

  2. Além do belo e elegante comentário do Rafael Lain os quais endosso plenamente, quero destacar a figura do ator Augusto Pompêo numa interpretação fantástica de Arlecchino, muito competente e magistral. Foi uma noite memorável e espero que se repita ao longo deste ano espetáculos tão consistentemente costurados e dentro do tom.Parabéns á todos, vocês alegraram meu coração.

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