No Coração do Mundo apresenta um interessante olhar sobre o Afeganistão

Nanda Rovere, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

“No Coração do Mundo”

SÃO PAULO – No Coração do Mundo fica em cartaz até 13 de dezembro e o objetivo é continuar a temporada em 2013. A direção e adaptação são de Zé Henrique de Paula. A direção musical é assinada por Fernanda Maia. No elenco estão os atores Chris Couto, Tony Giusti, Renata Calmon, Herbert Bianchi, Nábia Vilela, Eric Lenate, Alexandre Meirelles, Thiago Ledier, Marcelo Villas Boas, Thiago Carreira, Laerte Késsimos e Felipe Ramos. A temporada é gratuita, mas a dica é reservar antes o seu lugar e chegar com uma hora de antecedência, no mínimo, para evitar problemas.

“No Coração do Mundo”

No Coração do Mundo é uma livre adaptação da obra Homebody/Kabul, do escritor norte-americano Tony Kushner, realizada pelo Núcleo Experimental. No ano passado, o grupo encenou Casa /Cabul, baseada na mesma obra e que tinha uma duração maior.

Na nova versão, o texto é mais enxuto para contar a história de uma mulher apaixonada pelo Afeganistão, Sra Ceiling (interpretada pela atriz Chris Couto), que abandona a família e vai para o país. Seu sonho é conhecer a realidade de um povo sofrido e que a encanta pelo exotismo e mistério; nem ela mesma sabe direito o porquê desse interesse.

A peça é dividida em três partes (Londres/Cabul/Londres). Há um monólogo em que essa mulher, em sua casa na Inglaterra, relata com sutileza a sua fascinação pelo país, o seu desejo em conhecê-lo e o seu encontro com um afegão numa loja de Londres.

Através da fala da protagonista, o público conhece um pouco da história do Afeganistão e logo em seguida é levado para uma outra sala, que apresenta vários ambientes.

A partir desse momento, a plateia faz uma viagem a Cabul, entrando em contato mais estreito com os seus costumes, suas crenças e um cotidiano em que as mulheres não têm nenhuma voz.

O espectador fica próximo aos atores e a cenografia dá suporte às cenas, as quais acontecem em diversos locais da cidade de Cabul.

Sra Ceiling partiu para Cabul e é dada como morta pelas autoridades locais, bem como pela imprensa internacional. Seu marido e sua filha (Priscila) vão à capital afegã descobrir o que realmente aconteceu. As pistas são confusas e Priscila começa uma pesquisa incansável para saber o que realmente aconteceu com sua mãe.

Personagens que representam a submissão e a tentativa de driblar o controle do Talibã povoam a montagem, com caracterizações, cenários, trilha e iluminação que ambientam a ação num lugar devastado pela guerra e dominado pela miséria.

O diretor José Henrique de Paula contou com assessoria para que as informações visuais sobre o Afeganistão fossem as mais corretas possíveis.

A peça toca especialmente pela humanidade dos personagens e ressalta as características desse povo que é lembrado pelos conflitos a que estão expostos, mas pouco se fala na mídia, ou simplesmente nada se fala, sobre a sua alma.

As relações humanas são dissecadas de forma dura, mas sem deixar de lado a poesia. Os personagens expressam tristeza pela situação do país asiático, mas declaram amor por sua terra.

O elenco está coeso e, sem desmerecer ninguém, cito aqui a maturidade da Nábia Villela, cuja carreira de cantora e atriz acompanho desde 1997, quando ela estreou no Rio de Janeiro, em participação no espetáculo Morte e Vida Severina, com direção de Gabriel Villela.

Representa com garra a ex-bibliotecária Mahala, uma mulher que ama o seu país, mas que deseja mudar para Londres. A sua composição de voz (sotaque) é precisa; da sua interpretação emana grande emoção e a sua ânsia em deixar o país é tocante, num misto de força, tristeza e esperança. Nábia, além de ótima atriz, tem uma potência vocal ímpar.

Outros atores merecem destaque: Chris Couto prima pela sutileza na interpretação e tem o mérito de dizer com verdade um texto interessante e difícil, mediante a quantidade de informações que a sua personagem expõe sobre o Afeganistão. E Chris diz o texto com competência e doses de humor.

Tony Giusti é um ator experiente, que se destaca num personagem áspero, que não esconde não ter grande afeição nem pela mulher nem pela filha.

Outro ator com desempenho louvável é Eric Lenate, que tem uma composição vocal e corporal marcante. Ele é o guia de Priscila na sua busca pela mãe. Diz que é poeta mas, no decorrer da encenação, há indícios de que ele pode não estar sendo sincero com a moça.

FICHA TÉCNICA

Tradução, adaptação e direção: Zé Henrique de Paula. Direção musical e preparação vocal: Fernanda Maia. Preparação de atores: Inês Aranha. Assistência de direção: Thiago Ledier. Cenografia e figurinos: Zé Henrique de Paula. Assistência de cenografia: Laura Souza. Assistência de figurinos: Cy Teixeira. Iluminação:Fran Barros. Assessoria em História e Costumes Afegãos: Adriana Carranca. Assessoria em Dari e Pashtun: Sayed Mustafá. Direção de produção: Sergio Mastropasqua. Produção executiva: Claudia Miranda. Assistência de produção: Lara Hassum. Projeto gráfico: Laerte Késsimos. Assessoria de Imprensa: Arteplural -Fernanda Teixeira. Fotos: Ronaldo Gutierrez.

 

SERVIÇO:

No Coração do Mundo estreia dia 16 de outubro, terça-feira, no Teatro do Núcleo Experimental, às 21 horas na Rua Barra Funda, 637. Temporada gratuita: às terças, quartas e quintas-feiras, às 21 horas. Capacidade: 40 lugares. Duração: 100 minutos. Censura: 16 anos. Telefone: 3259-0898. Até 13 de dezembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*