O adeus ao nosso guerreiro das artes Michel Fernandes 

SÃO PAULO – Neste domingo (17), o teatro paulistano perdeu um homem. Michel Fernandes, idealizador do site e do Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. O coração dele parou.  E esse seria a única forma de pará-lo. Incansável, ele driblou estatísticas, driblou a morte para construir um legado para as artes cênicas.

Michel tinha uma doença degenerativa e chegou a receber uma sentença: seria no máximo e com sorte até os 25 anos. O que você faria se soubesse disso? Ele, como me disse várias vezes, escolheu não acreditar. E assim foi para a arte se salvar. Se alguém tem dúvida que a arte salva, o legado do Michel é a prova disso. Ele conseguiu se encantar por Pina Bausch e na dança achou sua força motriz. Chegou a ir à Alemanha! O Michel era incansável e foi pioneiro no teatro na internet. Enchia os pulmões para dizer que o Aplauso Brasil era o primeiro site do ramo na história.

Formou-se ator e diretor no Célia Helena Centro de Artes e Educação. Tinha ali como uma segunda casa, amava a escola como um bom pupilo. Michel era exigente e sonhador. Ensinou-me como poucos, me fez ler livros, dizer por que discordava dele mil vezes até um de nós nos convencer. Nos conhecemos no teatro, e não haveria de ser em outra parte. Não! Ele me deu carona e nos descobrimos vizinhos.

Um tempo depois, o IG resolveu tirar o Aplauso Brasil dos colaboradores e ele tinha mais um não da vida transformado em sim. Ele pegou a marca – que era dele e criou o site e também o prémio, seu antigo sonho não tão secreto.

Com opiniões fortes, o Michel ganhou credibilidade no teatro. Ia em tudo. Foi também um grande divulgador da causa da acessibilidade. Teatros sem acessibilidade enfrentaram sua ira justa. Ele mudou muita coisa no teatro por nunca se calar. Pela força e esperança que representava, sempre com grande entusiasmo, projetos e um sorriso. É uma ironia que ele tenha morrido em meio a uma guerra silenciosa. E claro, como pessoa de uma trajetória sem igual, morreu diferente, no seu tempo, no seu canto e na sua paz.

Perder o Michel é perder quem me alçou para onde eu estou hoje no teatro. Ele falava que tinha um amor paternal por mim e que brigava comigo quando sabia que eu não atingia o meu potencial. Ah, esse apoio! O Michel fazia o que podia e não podia pela arte e por quem amava. Quando eu estava no Canadá, ele me fez jurar que voltaria e que eu só poderia mudar de país quando ele morresse. Eu fiz essa promessa de estar com ele até o fim.

Eu soube quando a doença dele já estava no estágio final, e se me via chorar ele me confortava como se nele nem houvesse a dor a deterioração. Então, para mim ele era como os pais são: indestrutíveis e imortais. Não? O Michel deixou um propósito, morreu planejando o “interprete em casa”, o prêmio, o que fosse o futuro. Ele era um realizador de impossíveis. Um malabarista da arte. Alguém de propósito que venceu limites para marcar a história. Eu te amo infinito e esse é o texto mais difícil e mais molhado que eu fiz. Eu já pedi para minha mãe receber você ao som de Piaf, num lindo balé. Anjo do teatro. Obrigada! Você vive!

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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