O Anjo De Pedra de Inês Aranha mantém status de clássico

SÓ HOJE!

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplauso@gmail.com)

Peça clássica do mesmo autor de "Um Bonde Chamado Desejo"

É reconfortante  constatar que as atuais gerações teatrais  ainda estão sensíveis à poesia que emoldura e recobre as teias de despudorado melodrama do hoje clássico dramaturgo norte-americano Tennessee Williams, autor de tantos sucessos artísticos  a partir da  Broadway dos anos 40 do século passado e da Hollywood dos anos 50. É o que nos passa esta encenação de O Anjo de Pedra, de Inês Aranha, em fim de temporada no Teatro Coletivo.

Como em todas as tramas de Williams, a protagonista também é vitima da truculência  masculina em contraponto ao romantismo exacerbado que a norteia.

Aqui, em Anjo de Pedra, Alma Winemiller, vive sob a opressão religiosa do pai-pastor , obrigando-a a criar um mundo paralelo de afeições platônicas , diante dos assédios amorosos do jovem doutor com quem crescera. Se assim tranqüiliza o pai tirânico, a amargurada heroína cria para si um futuro que a confinará no beco sem saída do vazio existencial, além da moral.

É um tema – coração versus sexo – que não envelhece,  daí o interesse desta oportuna montagem da diretora Inês Aranha, que consegue manter aquecido todo o tempo o clima perverso de preconceito de uma cidade sulista dos Estados Unidos.

O cenário, também da diretora, embora a princípio incomode pelo  peso,  pela poluição visual, ganha foro de metáfora de um universo claustrofóbico em que se envolvem  Alma e as patéticas personagens que a rodeiam.

Igual cuidado da diretora sentimos na escolha e condução do elenco, pelas presenças de  reconhecido vigor cênico de João Acaiabe, João Bourbonnais, Bri Frioca e também do jovem ator Rui Ricardo Diaz na pele do desnorteado e conflituoso doutor eleito secretamente por Alma.

O elenco de apoio é numeroso, formado por jovens que se esforçam, com  razoável  acerto, na eficiência de seus tipos, à beira do estereótipo.

Infelizmente, fazemos restrições a Rosana Maris, idealizadora do projeto e que merece todo o respeito pela coragem da concretização da temporada: Rosana pode ter a sensibilidade de Alma, mas está  longe da sua fragilidade física, que criações anteriores nos acostumaram a moldar. Acrescente-se uma dicção apressada no ritmo das suas falas, chegando a prejudicar a compreensão da história. Estamos diante de uma atriz corajosa e ousada, que gostaremos de aplaudir em futuro breve, em papeis mais adequados.

Anjo de Pedra, pelo seu atual elenco e pela condução segura de Inês Aranha, garante o status de clássico para este melancólico retrato feminino de Tennessee Williams.

Serviço: Anjo de Pedra / Teatro Coletivo / Rua da Consolação, 1623. Consolação / fone 3255-5922 / Ingressos R$ 30,00 (inteira) / 4ª. e 6ª. feira às 21 horas. Somente até 16 de setembro. Até 14 anos.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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