O Bom Canário expõe a fragilidade humana

Nanda Rovere, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"O Bom Canário"

SÃO PAULO – Tentar compreender as pessoas é imprescindível, mas tem hora que é preciso dizer não. Como preservar a qualidade artística e os princípios éticos diante da possibilidade do sucesso profissional? Essas são questões que o espetáculo O Bom Canário, do dramaturgo e roteirista Zacharias Helmpropõe, em cartaz no Teatro Eva Herz, mas, obviamente, podem existir interpretações diferentes, de acordo com a experiência de vida de cada espectador.

O ponto central da trama é o relacionamento conturbado, intenso e cheio de amor entre um escritor, Jack (Joelson Medeiros) e sua mulher(Flávia Zillo), Anne é viciada em anfetamina. Ele, um escritor promissor, é conivente com o vício da mulher, que protagoniza situações constrangedoras, as quais podem comprometer o futuro do marido na literatura.

Anne não consegue guardar para si os seus descontentamentos com o mundo que a cerca e perde o controle com pessoas de opiniões contrárias às suas. Não admite que o marido, por exemplo, para conseguir um contrato milionário com um editor, aceite as exigências do mercado e não questione a superficialidade da crítica literária.

A dependência química atinge um grau extremo e uma revelação coloca em xeque a respeitabilidade de Jackie como artista e a capacidade de Anne de enfrentar os seus medos, visto que ela só consegue enfrentar o cotidiano usando drogas.

"O Bom Canário"

A diretora, e também atriz Camilla Amado, é nome respeitado no Rio de  Janeiro e a concepção do espetáculo prima em apresentar um trabalho delicado, visível especialmente na atuação dos atores, na escolha da trilha e no desenho de luz.

O Bom Canário é um texto forte, impactante e tocante, mas tem momentos leves, o que contribui para que a encenação não fique pesada. Charlie (Érico Ribas) é o agende de Jacke é ele quem dá um toque de humor à peça.

Um elenco que, sem dúvida, tem grande responsabilidade na qualidade da montagem. A direção possibilita que o elenco apresente um rendimento primoroso.

Joelson Medeiros vive um personagem aparentemente conformado, mas que, aos poucos, fica desesperado em ver a sua mulher caminhando ¨para o fundo do poço¨.

Flávia Zillo consegue transmitir toda a loucura e medo diante da vida. A sua fragilidade está à flor da pele e o seu amor pelo marido é nítido, não somente através dos diálogos, mas da sua tocante interpretação. A expressão corporal é primorosa e demonstra o quanto Anne está mergulhada no mundo das drogas.

Os demais atores têm participações menores e que merecem menção: Leandro Castilho, Marcos Ácher, Roberto Lobo e Sara Freitas.

O cenário ambienta a história na casa dos protagonistas e outros lugares. As várias alterações dos objetos do cenário, sofá, módulos, cortinas, etc, servem para mostrar as mudanças do local em que a peça acontece e, em algumas cenas específicas, retratam o temperamento impaciente de Anne. Essas trocam quebram um pouco o dinamismo das cenas. De qualquer maneira, elas não prejudicam a qualidade da encenação.

Um detalhe: Zacharias Helm escreveu o texto com 22 anos de idade e conseguiu um excelente resultado. Fala de assuntos que refletem a complexidade humana e com uma profundidade impressionante.

São Paulo tem recebido produções cariocas interessantes e de qualidade, demonstrando que no Rio de Janeiro a cena teatral contém trabalhos com a preocupação de contribuir para o aprimoramento do conhecimento e do senso crítico dos espectadores.

O Bom Canário permanece em cartaz até o dia 29 de julho, no Teatro Eva Herz. Vale a pena conferir.
Ficha Técnica:

Autor – Zacharias Helm

Tradução / Adaptação: Mauro Lima

Direção: Rafaela Amado e Leonardo Netto

Concepção: Leonardo Netto

Direção Geral: Camilla Amado

ELENCO

Annie FLÁVIA ZILLO

Jack JOELSON MEDEIROS

Charlie ÉRICO BRÁS

Jeff LEANDRO CASTILHO

Mulholland MARCOS ÁCHER

Stuart ROBERTO LOBO

Sylvia SARA FREITAS

Iluminação: Luiz Paulo Nenen

Figurinos: Espetacular Produções e Artes! Ney Madeira, Dani Vidal e PatiFaedo

Cenário: Marcelo Lipiani e Lídia Kosovski

Trilha sonora: Leonardo Netto

Produção Executiva: Marines Chaim

Assistente de Produção: Leandro Mariz

Administração: Valéria Keller

Produção Geral: Sandro Chaim

Serviço:

O BOM CANÁRIO

Teatro Eva Herz(166 lugares)

Avenida Paulista, 2.073 – Livraria Cultura / Conjunto Nacional

Informações: (11) 3170-4059 – www.teatroevaherz.com.br

Bilheteria: Terça a sábado, das 14h às 21h. Domingo, das 12h às 19h. Aceita todos os cartões de crédito. Não aceita cheque.

Vendas: www.ingresso.com e 4003-2330

Sábado às 21h. Domingo às 19h.

Ingressos: R$ 60
Duração: 110 minutos

Classificação Etária: 16 anos

Estreou dia 02 de junho

Temporada: até 29 de julhoa

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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