O Despertar da Primavera, versão de Charles Moeller e Claudio Botelho

Por Francisco Taunay para Opinião e Notícia.

À partir dessa crítica, selamos nossa nova parceria com o site carioca Opinião e Notícia.

Há cerca de três anos estreou na Broadway a adaptação musical da peça de Frank Wedekind, de 1891, “O Despertar da Primavera”. Sucesso nos EUA até hoje, esse musical foi praticamente copiado em termos das músicas e cenários nessa versão para os palcos brasileiros. Seria lugar comum criticar o espetáculo com uma lente de aumento que revelasse simplesmente seu aspecto americano, de musical do Off-broadway e depois da Broadway.

Vou fazer diferente, impactado pela emocionante versão dirigida pela reconhecidamente talentosa dupla Moeller e Botelho, escrevo sobre um espetáculo fascinante, que emociona o público com sua temática atual e perfeição formal. A primeira peça e também a de maior sucesso do dramaturgo Wedekind, que influenciou Bertold Brecht, retrata a vida dos adolescentes Melchior, Moritz e Wendla, na Alemanha do século XIX. No seu processo de descoberta do amor e do sexo, os jovens batem de frente com uma sociedade conservadora, que não permite sequer o diálogo sobre as questões sexuais.

A paixão de Wendla e Melchior é condenada pela escola e pelas respectivas famílias, que culpam o rapaz pela morte de seu amigo Moritz. Melchior, um brilhante aluno, de rara inteligência e beleza, é expulso da escola e condenado ao reformatório por ter escrito um tratado de dez páginas, que, com seu conteúdo erótico, teria influenciado o destino trágico de seu melhor amigo. O texto possui uma atualidade perturbante, por mostrar a perspectiva dos adolescentes frente a uma sociedade que busca, de forma hipócrita, formatá-los e moldá-los à sua imagem: o que é diferente, singular, deve ser transformado para fazer parte de um projeto social que prima pela repressão, militarismo e aposta na violência e na ignorância para educar os jovens da Alemanha do oitocentos.

Com uma temática que foca a descoberta do corpo e das sensações, bem como do lado obscuro que faz parte da nossa mente, o texto possui elementos impressionistas e expressionistas, evocando uma atmosfera perturbadora, criada por imagens sombrias e mesmo ingênuas. O musical de Steven Sater, na sua versão brasileira, possui um inegável cuidado estético. Os figurinos de Marcelo Pies são muito bem elaborados, com destaque para os vestuários masculinos. O cenário, de Rogério Falcão (aqui não sabemos o que é original e o que foi reproduzido do original), evoca tanto a Bauhaus como o expressionismo de um Gabinete do Doutor Caligari. A coreografia de Alonso Barros se adequa perfeitamenta à música de Duncan Sheik, supervisionada por Claudio Botelho: Um Rock tocado pela banda, ao vivo no palco. A iluminação, bem como a qualidade do som captado pelos microfones quase invisíveis, também são de primeira, acompanhando a desenvoltura do elenco, muito jovem e uniformemente bem trabalhado. Os destaques individuais são Rodrigo Pandolfo, como Moritz, Pierre Baitelli, no papel de Melchior, e a sublime Letícia Colin, interpretando Ilse. Carlos Gregório faz uma série de personagens adultos, com sutileza e qualidade. O primeiro ato da peça é mais desenvolto que o segundo, um pouco arrastado, principalmente pelo canto um pouco americanizado de alguns solos. A cena do cemitério possui rara beleza, e fica marcada como um acontecimento especial, seja pela teatralidade ou pela beleza dos seus efeitos especiais.

Vale a pena assistir este espetáculo muito bem elaborado, um presente para qualquer espectador, por mais exigente que seja.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.