O Expresso do Pôr do Sol: estreia de Fabio Assunção como diretor

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"O Expresso do Pôr do Sol"

O ator dirige e também assina a produção da montagem da peça de Cormac McCarthy, que discute vida e morte por meio do embate entre dois personagens interpretados por Cacá Amaral e Guilherme Sant’Anna

SÃO PAULO – Ao entrar na sala de espetáculo do Tucarena, o espectador já fica diante do clima proposto pelo diretor Fabio Assunção para a montagem da peça O Expresso do Pôr do Sol: os dois atores estão em cena, um parado e pensativo e o outro anda em passos firmes pelo palco redondo. Tensão e comportamentos opostos, esta é a tônica da peça original The Sunset Limited do norte-americano Cormac McCarthy, traduzida por Nelson Amorim e que foi adaptada por Maria Adelaide Amaral.

Fabio Assunção dirige "O Expresso do Pôr do Sol"

Depois dos três sinais característicos para o início — dados pelo ator Guilherme Sant’Anna em vasos que o diretor comprou na Índia — fica-se sabendo que Black (Guilherme) acabara de salvar White (Cacá Amaral) de uma tentativa de suicídio.

Mesmo contrariado, White é levado para o apartamento de Black, no subúrbio. É no reduto de Black (um ex-presidiário e atualmente um evangélico fundamentalista) que o embate filosófico, religioso e moral vai de desenvolver: White é um professor ateu, que vê na morte o único caminho possível para a sua vida, o que fará com que Black tente por todos os meios convencê-lo do contrário.

Dois elementos contribuem para o fluxo narrativo de choque de ideias: primeiro o cenário (assinado por Fábio Namatame, responsável também pelo figurino), de poucos elementos e constituído na base por dormentes de linhas férreas, que intensificam a tensão entre os personagens.

"O Expresso do Pôr do Sol"

O apartamento é outro destaque: é representado por uma caixa de metal em miniatura, pendurada por correntes. A claustrofobia fica evidente.

O segundo elemento é a iluminação de Caetano Vilela, que funciona como um personagem, tamanha a importância que traz ao espetáculo; focos poderosos cruzam toda a extensão do palco de arena, enfatizando o duelo verbal e filosófico de Black e White e a oposição entre luz e sombra.

Há na peça momentos para os dois personagens defenderem suas teses diante da vida. Primeiro Black se expõe e, na sua tentativa de demover o outro, mostra como transformou sua vida por meio da religião e aponta perspectivas ao oponente. Por sua vez, White ouve a princípio, mas depois contesta-o veementemente com argumentos fortes e definitivos.

“Encontrei na montagem um embate precioso entre a luz e a sombra, dois elementos tão presentes e conflituosos no homem moderno. Aquilo que mostramos e aquilo que escondemos. Não há forma definida nem conforto no duelo entre as forças que nos levam a escolher entre a vida e a morte”, argumenta Fabio Assunção.

Em 75 minutos, sem trégua, O Expresso do Pôr do Sol apresenta um duelo vital entre os personagens e o público não se desliga um só segundo, graças principalmente à extraordinária sintonia na interpretação de Cacá Amaral e Guilherme Sant’Anna. A estreia de Assunção na direção é muito bem-vinda.

Não perca, o espetáculo permanece em cartaz até o final de novembro.

Roteiro:
O Expresso do Pôr do Sol. Texto: Cormack McCarthy. Tradução: Nelson Amorim. Dramaturgia: Maria Adelaide Amaral. Direção: Fabio Assunção. Elenco: Cacá Amaral e Guilherme Sant’Anna. Iluminação: Caetano Vilela. Direção de arte e figurino: Fabio Namatame. Trilha sonora: Eduardo Queiroz. Fotografia: João Caldas. Produção executiva: Juliana Mucciolo. Realização: FASS Produções (Fabio Assunção)

Serviço:

Teatro Tucarena (300 lugares), Rua Monte Alegre, 1024. Telefone: 3670-8455. Horários: sextas às 21h, sábados às 21h e domingos às 19h30. Ingressos: sextas: R$ 40,00, sábados e domingos: R$ 50,00. Bilheteria: terça a domingo das 14h às 20h.Pagamento: cartões e pela Internet: www.ingressorapido.com.br. Duração: 75 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 30 de novembro de 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.