“O que Mantém um Homem Vivo?” Volta no TUSP

SÃO PAULO – O que Mantém um Homem Vivo?  leva ao público as contundentes reflexões de Brecht sobre a natureza do homem e suas contradições sociais. A peça fez uma bem-sucedida carreira no Teatro Anchieta e  agora estreia mais uma temporada no TUSP.

 

A primeira montagem da peça estreou no final de 1973. O espetáculo rodou o Brasil todo e manteve-se em cartaz até 1977, levando milhares de espectadores ao teatro, com destaque para a presença da comunidade estudantil. Os estudantes da época viram a peça como um canal de expressão para questões urgentes que inquietavam a sociedade brasileira naqueles anos de forte repressão. A peça marcou o nascimento do Teatro Vivo, companhia que Renato Borghi criou com Esther Góes em 1972, quando deixou o Teatro Oficina, grupo do qual foi fundador e onde esteve por quatorze anos, consagrando-se como um dos maiores atores do país. A montagem original foi dirigida pelo próprio Borghi, com a codireção de José Antônio de Souza. Anos mais tarde, em 1982, às vésperas da redemocratização, o texto teve uma segunda montagem, não menos impactante, no TBC e novamente estrelada por Renato e Esther, mas desta vez, com direção de Elias Andreato e Marcio Aurélio.

 

Quase cinco décadas depois da estreia, a peça ganha uma nova versão pelo Teatro Promíscuo, também dirigida por Borghi, que agora divide a cena com Elcio Nogueira Seixas e Georgette Fadel. O que Mantém um Homem Vivo?  se impõe, uma vez mais, como voz crítica e ato de resistência lúcida e criativa diante de um quadro preocupante de ataques aos valores democráticos, ameaça de retrocessos no campo dos direitos humanos e das liberdades civis. Atento ao momento explosivo que o Brasil atravessa, o Teatro Promíscuo, companhia fundada por Borghi e Elcio Nogueira Seixas em 1993, buscou em seus arquivos o roteiro original da peça, datilografado em uma antiga Olivetti por Renato Borghi e Esther Góes durante o período mais sombrio dos anos de chumbo. O retorno de “O Rei da Vela” em 2017 (com Borghi novamente brilhando com seu Abelardo I) e de “Roda Viva”, em 2018, cinquenta anos após suas estreias, causaram comoção e tiveram consecutivas temporadas com ingressos esgotados exatamente por lembrar ao público que o perigo do autoritarismo está sempre à espreita e que “é preciso estar atento e forte” para enfrentar esta ameaça.

 

Permeado pelo humor mordaz do dramaturgo alemão e pelas músicas de Kurt Weill, Hanns Eisler, Paul Dessau e Jards Macalé, os três atores se alternam em mais de vinte personagens sem sair do tablado. O roteiro se divide em quatro unidades que tratam de valores fundamentais da humanidade: Bondade, Ciência, Justiça e Amor. A peça conta ainda com um prólogo, um entreato musical e um epílogo, todos abordando temas de discussão emergencial nos dias de hoje: igualdade, liberdade, identidade, solidariedade, educação, entre outros. Como sobreviver e manter sua humanidade em tempos de miséria, desalento, intolerância, censura, repressão e violência? O que mantém um homem vivo? A pergunta-título da peça é o desafio que Bertolt Brecht propõe ao público através deste espetáculo.

 

O que Mantém um Homem Vivo?  tornou-se se referência por sua postura crítica em relação ao autoritarismo e seus efeitos sobre o indivíduo e a sociedade. Assim como “O Rei da Vela” e “Galileu Galilei” (ambos estrelados por Renato Borghi), além de “Roda Viva”, marcaram os anos 60 como espetáculos que desafiaram a nova ordem ditatorial nascida com o golpe de 1964, O que Mantém um Homem Vivo?  , no início da década seguinte, marcada por censura feroz e repressão violenta, teve protagonismo semelhante.

 

Nesta nova encenação de Borghi, a linha estética rústica e despojada do espetáculo original se mantém. Os cenários de Daniela Thomas e os figurinos de Cassio Brasil têm como norte a tradução desta linguagem concreta para o mundo atual, o que significa explorar materiais produzidos e descartados em massa pela acelerada sociedade de consumo do século XXI. Renato Borghi também preserva, na nova montagem, a clareza na exposição das cenas e o humor cáustico que imprimiu à primeira performance, surpreendendo a crítica. Em consonância com o que pôde observar diretamente em sua passagem pelo Berliner Ensemble, Borghi aposta em sua direção no recurso épico como um elemento que desperta a atenção do espectador e o coloca em estado de curiosidade permanente, o que contribui para que o espetáculo mantenha uma dinâmica ágil e ofereça ao público uma experiência inquietante, um exercício da capacidade de pensar.

 

As músicas de Kurt Weill, Hanns Eisler, Paul Dessau e Jards Macalé, que, na versão de 73, tiveram arranjos do maestro Paulo Herculano, desta vez, ficam aos cuidados do igualmente criativo maestro Gilson Fukushima (“O Mistério de Irma Vap”; “Molière”; “O Grande Sucesso”), que pretende manter o colorido circense obtido por Herculano na primeira orquestração, mas valendo-se das novas técnicas disponíveis e de sonoridades mais diversificadas para que a música do espetáculo também soe contemporânea.

 

 

 

Ficha Técnica:

TEXTOS: BERTOLT BRECHT

ROTEIRO E ADAPTAÇÃO: RENATO BORGHI e ESTHER GÓES

DIREÇÃO: RENATO BORGHI

CODIREÇÃO: ELCIO NOGUEIRA SEIXAS e GEORGETTE FADEL

SUPERVISÃO CÊNICA: DIEGO FORTES

ELENCO: RENATO BORGHI, ELCIO NOGUEIRA SEIXAS e GEORGETTE FADEL

DIREÇÃO DE ARTE: DANIELA THOMAS

FIGURINO: CÁSSIO BRASIL

ILUMINAÇÃO: BETO BRUEL

MÚSICAS: KURT WEILL, HANNS EISLER, PAUL DESSAU e JARDS MACALÉ

DIREÇÃO MUSICAL: GILSON FUKUSHIMA

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: PEDRO DE FREITAS / PÉRIPLO

ASSESSORIA DE IMPRENSA: ADRIANA MONTEIRO (OFÍCIO DAS LETRAS)

 

SERVIÇO

O QUE MANTÉM UM HOMEM VIVO?
Teatro Cacilda Becker – Dias 21 e 22 de dezembro de 2019, sábado, às 21h e domingo, às 19h

ENTRADA FRANCA (distribuição de 50% dos ingressos através do Sympla a partir de 16/01 e 50% na bilheteria do teatro 1h antes da apresentação

Endereço R. Tito, 295 – Lapa – São Paulo – SP

Telefone: Acesso para deficientes

Capacidade total- 198 lugares

 

TUSP – De 16/01 a 16/02 – quinta a sábado às 20h30 e domingos às 18h30 TUSP ( Teatro da USP – Rua Maria Antônia 294) Ingressos: R$20,00 (venda on-line pelo Sympla a partir de 16/12 e na bilheteria do teatro 1 hora antes das apresentações)

Endereço:  Rua Maria Antônia, 294 – Consolação – São Paulo, SP – (Metrô Santa Cecília)

Telefone: (11) 3123.5223/5233

 

TUSP – De 16/01 a 16/02 – quinta a sábado às 20h30 e domingos às 18h30 TUSP ( Teatro da USP – Rua Maria Antônia 294) Ingressos: R$20,00 (venda on-line pelo Sympla a partir de 23/12 e na bilheteria do teatro 1 hora antes das apresentações)

Endereço:  Rua Maria Antônia, 294 – Consolação – São Paulo, SP – (Metrô Santa Cecília)

Telefone: (11) 3123.5223/5233

100 lugares

 

Duração: 120 minutos, com intervalo de 10 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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