Obra inacabada de Pirandello, Os Gigantes da Montanha, ganha sabor especial com a leitura do Grupo Galpão

Da redação do Festival de Teatro de Curitiba 

OS GIGANTES DA MONTANHA
OS GIGANTES DA MONTANHA

CURITIBA – “Os Gigantes da Montanha”, de Luigi Pirandello, não tem um final. Depois de sete anos de trabalho, o autor acabou morrendo, em 1936, antes de concluí-la.

“O fato de ‘Os Gigantes da Montanha’ não ter um final dá um sabor especial à peça”, disse o ator Eduardo Moreira.

Se o texto teatral é por si só uma obra aberta, cujo ponto final pode ser escolhido por uma companhia como o Grupo Galpão, ganha níveis de liberdade e novidade que têm surpreendido o público.

“Ainda assim, Pirandello deu indicações de como terminaria a peça.”

O espetáculo está no projeto Sesi na Rua, do Festival de Curitiba e setambém em Araucária, no sábado (29), e em Ponta Grossa, hoje (1°). Em Curitiba, o grupo se apresenta nos dia 4 e 5 na Praça Santos Andrade.

Toda a idealização de “Os Gigantes da Montanha” aponta para os ideais estéticos do Galpão, com o toque da terceira participação de Gabriel Villela como diretor da companhia.

“O resultado é impactante”, diz Moreira.

O texto foi uma escolha do próprio diretor para celebrar o reencontro com o Galpão. A fábula narra a chegada de uma companhia teatral decadente a uma vila isolada do mundo, cheia de encantos, governada pelo mago Cotrone. A trupe de mambembes encontra-se em profundo declínio e miséria, por obsessão de sua primeira atriz, a condessa Ilse, em montar “A Fábula do filho trocado” (peça escrita por um jovem poeta que se matou por amor não correspondido da condessa). Cotrone, o mago criador de “verdades que a consciência rejeita”, começa a construir os fantasmas dos personagens que faltam para a companhia montar a peça. Ele convida os atores a permanecerem para sempre na Vila, representando apenas para si mesmos a “A Fábula do Filho Trocado”. Ilse, no entanto, insiste que a obra deve viver entre os homens, sendo representada para o público.

A solução encontrada, que resultará no desfecho trágico da peça, é sua apresentação para os chamados “Os Gigantes da Montanha”, povo que vive próximo da Vila. Os gigantes, por terem um espírito fabril e empreendedor, “desenvolveram muito os músculos e se tornaram um tanto bestiais”, e, portanto, não valorizam a poesia e a arte. O ato final da peça, que ficou inconcluso, mas que chegou a ser vislumbrado pelo autor em leito de morte, descreve a cena em que Ilse e a poesia são trucidadas pelos embrutecidos Gigantes. A peça termina com os atores da companhia carregando o corpo da atriz na mesma carroça em que chegaram à primeira cena.

“Os Gigantes da Montanha” traz uma contundente discussão sobre o possível lugar da arte e da poesia num mundo dominado pelo pragmatismo e pela técnica. A morte de Ilse representa a morte e também o renascimento da arte. Como a Fênix que ressurge das cinzas: a velha arte precisa morrer para que novas sensibilidades artísticas brotem e floresçam.

OS GIGANTES DA MONTANHA

Mostra Sesi na Rua – 4 e 5 de abril – 19h.

Praça Santos Andrade

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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