Rio de Janeiro – Escrever sobre a morte de Tônia Carrero não é tarefa fácil para mim. Junto com o legado da atriz, perco uma boa parte da minha infância e adolescência. Ela foi um dos mitos femininos que fez a minha cabeça. Lembro quando eu tinha treze anos e comprei o ingresso (naturalmente, na primeira fila do Theatro São Pedro) para ver Tônia em As Atrizes, peça que Juca de Oliveira escreveu especialmente para ela. Aquilo era a concretização de um sonho. Vê-la em cena.

Também é difícil sintetizar seu legado. Ela foi a mulher mais bonita do Brasil, grande atriz, musa de Drummond e Paulo Mendes Campos, inimiga de Cacilda Becker e Paulo Francis e a melhor amiga de Paulo Autran. Com este viveu uma linda parceria desde Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, primeira peça profissional dos dois, encenada em 1949.

Como se não bastasse isso tudo, era inteligente. Seu livro de memórias O Monstro de Olhos Azuis, escrito junto com Lya Luft e sua entrevista para a série Bastidores, de Simon Khoury mostram que ela não era apenas “a bonita”, como era chamada pejorativamente no começo de sua carreira teatral.

Foi, justamente, rompendo com seu padrão estético que ela fez história. Quando interpretou Neusa Suely em Navalha na Carne, sob a direção de Fauzi Arap conseguiu ser legitimada como grande intérprete.

E foi com uma peça escrita e dirigida por Fauzi que a vi pela última vez no palco. Era Chega de História, em que ela interpretava uma professora aposentada desiludida com a profissão e com os rumos do Brasil. Novamente, ela interpretava uma personagem desprovida do glamour pelo qual ficou conhecida. E eu fã absoluto, estava novamente na primeira fila, desta vez do Espaço Promon para vê-la. Afinal, Tônia era Tônia. E o Brasil nunca terá outra atriz igual a ela.