Opressão contra a mulher é tema de peça encenada em um hotel

SÃO PAULO – Inimigo Oculto estreia no dia 15 de outubro, terça, às 19 horas, no Hotel Selina, novo espaço na Vila Madalena. A peça tem texto de Roberta Simoni e Rodrigo França, que assina a direção ao lado de Andrea Bordadagua, e marca a estreia da dupla de diretores no teatro adulto paulistano. O espetáculo teve uma montagem carioca, mas ganha uma nova versão para a temporada paulista. No elenco de São Paulo, temos os atores Carlota Joaquina, Gabrielle Araújo, Naloana Lima,  Silmara Deon, Bruno Kott, Luciano Chirolli, Ricardo Gelli e Sidney Santiago Kuanza. 

O espetáculo acontece em movimento, com cenas em diversos ambientes de um hotel, com as personagens em situações que expõem diversas formas de opressão contra a mulher, em diversas intensidades. Rodrigo França, que também é cientista social, sempre trouxe temas que levantassem questões que abordassem fissuras sociais e problemas políticos e resolveu falar sobre a opressão cotidiana contra as mulheres (principalmente aquela mais velada e psicológica, que nem sempre é considerada violência) há cerca de 2 anos e meio.

“Números alarmantes de violência contra a mulher sempre chegaram até mim e isso sempre me deixou assustado, principalmente quando olhamos a porcentagem de mulheres negras nesses dados. Falar sobre o assunto se tornou urgente e, infelizmente, ainda temos essa necessidade”, afirma Rodrigo, que se juntou a duas mulheres para o projeto por acreditar que a visão do homem não seria completa e nem tocaria o público da maneira que peça precisava fazer. “Apesar de me juntar às causas femininas, esse não é o meu lugar de fala. Esse projeto é feito para dar voz às mulheres. Isso é de extrema urgência numa sociedade em que o machismo é estrutural. Fomos construídos em cima de conceitos que colocam a mulher num papel de objeto sem muita importância, o que dá aos homens o direito de fazer com elas o que bem quiserem. Isso precisa parar”, diz.

Rodrigo chamou Roberta Simoni para escrever a peça ao seu lado, que disse ter tirado a ideia da peça de um sonho. “Um dia, eu sonhei que caminhava por um museu que contava histórias de mulheres que sofreram feminicídio. Fiquei tão impressionada com o sonho que contei pro Rodrigo, que imediatamente sentenciou: “nós vamos fazer uma peça sobre isso, mana”. Nada disso teria acontecido sem ele. Até mesmo a mulher engajada nas causas feministas que me tornei foi ele quem ajudou a formar. O Rodrigo esteve do meu lado quando eu tinha acabado de sair de uma relação abusiva e me ajudou a transformar o trauma em trama. Ele teve o papel fundamental não só de idealizar o espetáculo, como de me estimular a escrever cada cena. Ou seja, ele teve a sensibilidade de me fazer perceber que, através do meu ofício de dramaturga e roteirista, eu tinha as ferramentas para curar minhas feridas e, simultaneamente, ajudar outras mulheres a se curarem também e, sobretudo, a buscarem ajuda”, relata.

Andrea Bordadagua define Inimigo Oculto como uma peça silenciosa. “Ela desperta inúmeras vozes dentro de nós. Mas, ao mesmo tempo, é silenciosa. E ela simboliza o silêncio que deveríamos ouvir ao passar a chave na porta de casa e entrar nesse espaço que era para ser de tranquilidade e segurança. O espetáculo mostra que nem sempre é isso que acontece. Que esse lugar de acolhimento, em alguns casos, desperta uma enorme insegurança”.

Rodrigo diz que a violência que vemos em cena não é violência física, facilmente identificada. “Algumas pessoas enxergam esse tipo de opressão como uma forma de cuidado ou um tipo de romance. Mas o público é confrontado de maneira a perceber que aquilo causa dor e sofrimento às mulheres. Já recebemos, inclusive, relatos de pessoas que só perceberam que viviam num relacionamento abusivo depois de ver algumas cenas e se identificarem no papel da vítima”, conta.

Versão paulista

Gabrielle Araújo, diretora de produção de Inimigo Oculto e também uma das atrizes do elenco, já tinha vontade de trazer o espetáculo para São Paulo há algum tempo. Ela e Rodrigo já fizeram outras parcerias e conversavam sobre o assunto até que ela resolveu apostar suas fichas e montar uma versão paulista mesmo sem o patrocínio ou algum edital como apoio. “O tema e a maneira como ele desperta o público são extremamente necessários nesse momento maluco de Brasil que vivemos. Projetos como esse são aqueles que nos lembram porque acreditamos no teatro. Mais do que levar arte, a peça mexe com o público, fazendo pensar sobre questões importantes. Inimigo Oculto é uma grande experiência também”, explica Gabrielle.

Conversando com os diretores, a produtora e a dupla viram que a peça precisava de uma versão paulista, com atores daqui e também com algumas cenas que regionalizassem o discurso, aproximando a cena da plateia. “Essa é a minha primeira experiência em São Paulo e com artistas daqui. Comecei muito bem com uma espécie de elenco dos sonhos, repleto de nomes fantásticos da cena teatral paulistana”, comemora Andrea. Outra curiosidade é que equipe técnica de apoio é toda composta por mulheres por iniciativa da própria Gabrielle.

Quando começou, há mais de dois anos, o espetáculo acontecia em um apartamento. Em São Paulo, a produção fechou uma parceria com um hotel recém-inaugurado na Vila Madalena, o Selina, que também recebeu a montagem na sua versão carioca, na sua unidade da Lapa. “A ideia é tirar o público do teatro e trazer ele para cena, no papel do voyeur, proporcionando uma experiência com o tema e questionando até o seu papel ao ouvir brigas de vizinhos, por exemplo”, conta Gabrielle.

A dramaturga Roberta diz que, desde o início, percebeu que essa é uma montagem que tem um enorme papel social e comemora a chegada a São Paulo. “A medida que o espetáculo foi tomando forma no Rio, fomos recebendo retorno do público, entendemos a potência desse projeto como ferramenta de construção, reflexão e transformação social. Hoje, depois de várias montagens no Rio e de ficarmos por mais de dois anos em cartaz, ver Inimigo Oculto ganhando asas e chegando à São Paulo, capital mais cultural do país, sentimos uma alegria profunda e uma esperança muito grande de alcançar e conscientizar um público cada vez maior”, diz.

Para serviço

INIMIGO OCULTO – Estreia 15 de outubro, terça, às 19 horas. Temporada – Até 26 de novembro, terças, às 19 horas. Classificação etária – 14 anos. Duração –  70 minutos. Ingressos  – Contribuição consciente ao final do espetáculo. Texto – Roberta Simoni e Rodrigo França. Direção – Andrea Bordadagua e Rodrigo França. Assistência de Direção – Gabrielle Araújo e Bruno Kott. Direção de arte – Cris Matsuoka. Elenco – Carlota Joaquina, Gabrielle Araújo, Naloana Lima, Silmara Deon, Bruno Kott, Luciano Chirolli, Ricardo Gelli e Sidney Santiago Kuanza. Direção de Produção – Gabrielle Araújo. Produção Executiva – Renata Araújo. Assistência de Produção –  Theresa Fonseca. Assessoria Jurídica – Renata Araújo. Fotografia e Audiovisual – Patrícia Soransso. Design e Identidade Visual – Viviane Lamana. Realização – Caboclas Produções. Produtora Associada – Impacto R Cultura e Arte.

HOTEL SELINA  – R. Aspicuelta, 237/245 . Capacidade – 30 lugares.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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