Os patéticos seres marginalizados de Senhora no Jardim

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Grupo Botija apresenta "Senhora no Jardim" só até domingo

SÃO PAULO – Um jovem presidiário em liberdade condicional tromba com uma prostituta sexagenária (como gosta de ser chamada, “puta nunca!”) numa imaginária noite mal iluminada do Jardim da Luz. Na cena do Teatro Augusta vê-se um banco ao centro do palco. No proscênio, à direita, um carrinho voltado para o fundo, com um presumível bebê que dorme ou está desmaiado de fraqueza. Desde o início o diálogo é de assumida rudeza, tamanha a sinceridade que brota das palavras de ambos os lados, assim é o ambiente de Senhora no Jardim que encerra temporada no próximo domingo (10).

Ninguém mais se ruboriza na platéia ante uma cachoeira de palavrões, desde quando surgiu um Plínio Marcos sem pudores em Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja fazendo uma  deputada, feroz defensora  dos bons costumes exigir que se colocasse na bilheteria tratar-se de “espetáculo pornográfico”.

E é na prostituta Norma Suely de Navalha na Carne que este surpreendente autor Maciel Oliveira vai buscar o falar desbocado, mas nunca debochado, dessa mulher orgulhosa de sua milenar profissão, que pede respeito: “essas meninas aí das baladas, da grã-finagem, falam que são garotas de programa, acompanhantes. Certo!  E eu, que só estou querendo ganhar vinte “real” em troca de um trato em você, aqui no silêncio do escurinho,vem você e insiste em me chamar de puta! Prostituta é o que eu sou. Puta é a senhora sua mãe!”, pondera.

Inspiração da peça foi colhida em jornal

E o texto vai desvelando aos poucos, com maior ou menor felicidade, o inferno  que vai pela alma do rapaz, estado em que está  mergulhado desde que matou “por amor”, insiste em esclarecer, ele: “Ela queria sexo. Caçoou da minha virgindade! Eu só queria um beijo! Tenho nojo de sexo! Ela me humilhou”.

UM GRUPO QUE PLANEJA SUA CARREIRA

O Grupo Botija, nascido e criado longe do centro  cultural da cidade, tem em Maciel Oliveira seu principal agitador cultural. Fundado em 2003, pelo seu planejamento de ação junto às empresas e escolas, com repertório ainda pequeno, mas empenhado em difundir cultura, chega agora ao horário nobre dos fins de semana no palco principal do disputado Teatro  Augusta, como mais um exemplo da força e da pujança da classe C  nestes tempos de bonança  da  economia. Aceitou o desafio de apostar no conteúdo social das suas encenações, em detrimento da tranqüilidade do lucro.

UM ESPETÁCULO SURPRESA NO MEIO DO FURACÃO

Mas, voltando a este surpreendente Senhora no Jardim ( dentro de um vendaval de estreias), embora o texto tenha alguns momentos de forçado lirismo nas revelações e reflexões do protagonista masculino, o tom geral é de vivo e permanente suspense entre o hipotèticamente manjado encontro prostituta-cliente. Com final inesperado, este sim, poético. Fábio Rodrigues, o diretor, consegue manter o ritmo ágil, com invejável destreza na criação de uma atmosfera até que elegantemente erótica, apesar da abundância  de termos escatológicos.

A cereja do bolo aparece na figura de Natalia Amaral, em atuação vibrante e carismática. Natalia também consegue dosar o perigo iminente do pornográfico, recorrendo à autocrítica da personagem com bem-vindo humor.

Por sua vez, o ator Maciel Oliveira, com seu aspecto dúbio de inocência e esperteza rude, cria um psicopata como  o  teatro, talvez, jamais tenha visto, acompanhando de perto o belo resultado da parceira em cena.

Fiquem atentos a este Grupo Botija e ao autor Maciel Oliveira  E, lógico, corram até o Augusta: a peça sai neste domingo, 10.

Senhora no Jardim / Teatro Augusta  / 328 lugares /Rua Augusta, 943 / telefone 3151-4141 /; 6ª. 21h3O, sábado 21h,domingo 19h/ R$ 40, e 50 / 14 anos / até 10 de junho.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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