Palácio do Fim chega a SP e traz história de sucesso na bagagem

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (Michel@aplausobrasil.com)

"Palácio do Fim" - foto de Guga Melgar

SÃO PAULO – Fenômeno da temporada teatral carioca de 2011, Palácio do Fim chega hoje ao Teatro Anchieta (SESC Consolação) para apenas oito semanas de apresentação. O espetáculo da autora canadense Judith Thompson, sob direção de José Wilker, traz em sua bagagem quatro indicações ao Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro, incluindo Melhor Direção para Wilker e Melhor  Atriz para Vera Holtz.

Thompson dividiu o texto em três monólogos – na encenação de José Wilker representados de maneira fragmentada e intercalada -, cujos personagens são inspirados em figuras reais, protagonistas de reportagens sobre um mesmo assunto.

Camila Morgado interpreta a oficial norte-americana Lynddie England, grávida do namora (oficial, também preso por torturar prisioneiros iraquianos), acusada de torturar prisioneiros iraquianos pela corte marcial.

“Não aceito o que Lynddie fez, mas para dar maior veracidade à personagem busco raciocinar como ela, sem julgá-la”, disse Morgado.

Já Antonio Petrin dá vida ao cientista britânico, Dr. David Kelly, especialista em armamentos biológicos, que, arrependido, conta ao jornalista Andrew Gillian, da BBC, sobre a falsificação do laudo que assinou atestando a existência de armas biológicas provocadoras de destruição em massa, quando trabalhava para o ministério da defesa do governo inglês sob o comando de Tony Blair.

“Encontraram ele morto misteriosamente próximo a sua casa algum tempo depois. Mas acredito que, como a versão da autora da peça, ele cometeu suicídio”, afirma Petrin.

E Vera Holtz dá vida à iraquiana Nehrjas Al Saffarh, que significa ranúnculo, ativista iraquina membro do Partido Comunista, professora, mãe de três filhos, que é capturada pelos torturadores do partido de Saddam Hussein, que, nos anos 1970, com o apoio da CIA, deu um golpe e assumiu o poder ditatorial, instaurando uma terrível caça aos comunistas. Levada ao Palácio do Fim (nome da câmara de tortura instaurada na ditadura de Hussein) para delatar o esconderijo do marido, líder do PC, ela relata os horrores a que foi submetida e revela seus segredos.

Camila Morgado, Antonio Petrin, José Wilker e Vera Holtz

O cenário de Marcos Flaksman, bem como os figurinos de Beth Filipecki, buscam a “discrição”, segundo contou a atriz Vera Holtz, em cena.

A paixão pela linguagem cinematográfica carregada pelo diretor do espetáculo é expressa pela iluminação de Maneco Quinderé, cujos recortes mostram, em alguns momentos, apenas partes dos corpos dos atores.

“Busquei priorizar o trabalho dos atores, pedindo a esses mestres da luz, cenografia e figurino que buscassem a maior neutralidade possível”, completou o diretor.

Baseado em fatos reais

Palácio do Fim surgiu quando a dramaturga canadense Judith Thompson teve a ideia de transformar um artigo de jornal em pequeno monólogo. Na época, o que mais chamou sua atenção foi a cobertura da imprensa para o caso Lynndie England, oficial americana presa pela participação na tortura de prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib. A autora notou que os comentários sobre Lynndie eram repletos de ódio misógino, sem qualquer relação com política, e decidiu transformá-la em personagem.

Após uma primeira versão do texto, que contou com a atuação da atriz Waneta Storms, Judith incorporou outros personagens. O primeiro foi baseado na trajetória do cientista britâncio David Kelly, cuja coragem a sensibilizou. Para completar, era necessário dar voz a uma mulher iraquiana ― e, por coincidência, alguns de seus vizinhos eram imigrantes do Iraque. Foi assim que entrou em contato com a história das torturas sofridas durante os anos 1960 pela mulher de um famoso comunista daquele país.

Wilker contou que assistiu a uma leitura cênica da peça em Nova Iorque e se impressionou com o tratamento poético de um tema tão árido que, ao mesmo tempo, “denunciava o absurdo da invasão norte-americana ao Iraque, documentando numa linguagem teatral a realidade do momento”.

Palácio do Fim foi produzido pela primeira vez como um peça completa no Epic Theatre, em Nova York. Em seguida foi montada em Los Angeles, no CanStage (Toronto), e no Royal Exchange (Manchester), recebendo o prêmio Amnesty International Freedom of Speech. Também venceu os prêmios Susan Smith Blackburn e Dora (o Tony de Toronto).

Palácio do Fim – Estreia dia 20 de janeiro, sexta-feira, às 21 horas, no Teatro Anchieta do SESC Consolação. Autora – Judith Thompson. Tradução – João Gabriel Carneiro. Direção – José Wilker. Elenco – Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz. Cenografia – Marcos Flaksman.Figurinos – Beth Filipecki. Iluminação – Maneco Quinderé. Música original – Marcelo Alonso Neves. Projeto gráfico – Felipe Taborda (direção de arte) e Lygia Santiago (design). Direção de Produção – Cláudio Rangel. Realização – M.I. Produções Artísticas. Temporada – 20 de janeiro a 11 de março. Sextas e sábados às 21 horas e domingos às 18 horas. Ingressos – R$32,00 inteira, R$16,00 meia e R$8,00 comerciários. Classificação – 14 anos. Duração – 90 minutos.

TEATRO ANCHIETA – Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel: 3234-3000. Capacidade – 320 lugares. Ar condicionado e espaço para deficientes físicos. Aceitam-se cartões de crédito (todas as bandeiras) e cheques de todos os bancos. Bilheteria – De segunda a sexta, das 12h30 às 21 horas, sábados, das 9 às 21 horas e aos domingos, das 14 às 20 horas. www.sescsp.org.br

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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