Palácio do Fim: os horrores de uma guerra

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Vera Holtz emociona em "Palácio do Fim"

Baseada em fatos do conflito do Iraque, a peça de Judith Thompson mostra o drama de uma iraquiana vítima de tortura, o dilema de um cientista britânico que denunciou a farsa das armas de destruição em massa e o relato de uma recruta norte-americana acusada de abuso aos prisioneiros de Abu Ghraib. Direção de José Wilker, com Vera Holtz, Antonio Petrin e Camila Morgado

SÃO PAULO – Independe do período da história da humanidade: guerra é sempre indefensável. Os horrores que ela causa — seja para uma pessoa, para uma família, uma nação ou para todo o planeta — são sempre devastadores. A arte retrata, invariavelmente, os conflitos armados; na maioria das vezes, como forma de denúncia das atrocidades geradas por eles.

A dramaturga canadense Judith Thompson em Palácio do Fim, em cartaz no SESC Consolação até 11 de março, não fez diferente. Partiu de fatos reais da Guerra do Iraque e criou três monólogos, que na montagem dirigida por José Wilker, são intercalados nos 90 minutos de duração do espetáculo. As três histórias relatam experiências de personagens que, mesmo em campos opostos, tiveram suas vidas brutalmente alteradas com o advento da guerra.

Palácio do Fim refere-se ao local em que o governo do ditador Saddam Hussein torturava os cidadãos em Bagdad, capital do Iraque. A autora criou primeiramente o monólogo Minhas Pirâmides, em que a recruta do exército americano Lynndie England (Camila) está grávida do ex-namorado e presa, acusada de participar de sessões de abuso e tortura aos detentos da prisão de Abu Ghraib. Nas fotos divulgadas os soldados norte-americanos puxavam os presos e os amontoavam, nus, em pírâmides humanas.

Em seguida a autora acrescentou o monólogo Colinas de Horrowdown, em que o cientista inglês David Kelly (Petrin) relata seu dilema moral; ele fez parte do grupo que confirmara o potencial bélico de Saddan (armas de destruição em massa) e assinara um pacto de sigilo. Com o extermínio de uma família iraquiana, seus amigos, resolve denunciar a farsa para um programa da BBC de Londres. Passa a ser humilhado e num bosque perto de sua casa resolve se matar (ou foi assassinado?).

Camila Morgado dá vida à Linddye England

Para completar o painel dos horrores desta guerra, a canadense cria o monólogo Instrumentos de Angústia, em que a ativista do Partido Comunista Nehrjas Al Saffarh (Vera) narra as atrocidades cometidas no Palácio do Fim com ela e seus filhos menores. O relato é post-mortem, pois a ativista morreu de um bombardeio durante a guerra do Golfo, em 1993.

A montagem não dá trégua ao espectador: desde o início os atores entram e se posicionam estratégicamente no palco. A brilhante iluminação de Maneco Quinderé deixa apenas parte dos corpos iluminada, numa alusão direta aos efeitos causados pelo conflito armado. As três histórias são contadas de maneira intercalada e o público, desta forma, tem a chance de montar o sangrento quebra-cabeça bélico iraquiano.

Não é por acaso que a montagem carioca chega a São Paulo recheada de indicações ao pêmio Shell: Wilker pela direção, Maneco pela iluminação e Beth Filipecki pelo figurino, todos merecidíssimos. No entanto, Vera Holtz , também indicada, é sem dúvida o maior destaque de Palácio do Fim. De maneira sóbria, sentada numa banqueta, com ligeiro sotaque curdo/árabe, a atriz transmite a dimensão da dor de uma mãe que assiste a tortura de filhos. Seu relato é a síntese do escárnio ao autoritarismo e opressão de Saddam Hussein.

Roteiro:
Palácio do Fim
. Texto: Judith Thompson. Tradução: João Gabriel Carneiro. Direção: José Wilker. Elenco – Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz. Cenografia:  Marcos Flaksman. Figurinos: Beth Filipecki. Iluminação: Maneco Quinderé. Música original:  Marcelo Alonso Neves. Projeto gráfico: Felipe Taborda (direção de arte) e Lygia Santiago (design). Direção de Produção: Cláudio Rangel.

Serviço:
SESC Consolação, Teatro Anchieta (320 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel: 3234-3000. Sextas e sábados às 21 horas e domingos às 18 horas. Ingressos: R$32,00 inteira, R$16,00 meia e R$8,00 comerciários. Ar condicionado e espaço para deficientes físicos. Aceitam-se cartões de crédito (todas as bandeiras) e cheques de todos os bancos. Bilheteria: de segunda a sexta, das 12h30 às 21 horas, sábados, das 9 às 21 horas e aos domingos, das 14 às 20 horas. www.sescsp.org.br. Classificação – 14 anos. Duração – 90 minutos. Temporada: até 11 de março.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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