Peça coloca em questão a liberdade de expressão

Nanda Rovere, do Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com)

SIT DOWN DRAMA
SIT DOWN DRAMA

SÃO PAULO- Com direção de Eric Lenate, a comédia Sit Down Drama fala de um famoso comediante brasileiro que, ao contar uma piada de mau gosto na TV, é criticado pela opinião pública e tem o seu sucesso como artista ameaçado. No elenco estão 12 atores, entre eles: Caco Ciocler, Danilo Grangheia, Chris Couto, Ando Camargo e Noemi Marinho. O texto é de Michelle Ferreira. A estreia é sexta-feira (27) às 21h, no Teatro Anchieta (SESC Consolação).

Na trama, o personagem Alves De (Danilo Grangheia), um humorista conhecido no Brasil, entra em crise existencial após uma viagem profissional aos países escandinavos.

No exterior, ele percebe que precisa rever as suas piadas e o modo de contá-las. Num domingo à noite, tem a oportunidade de se apresentar num importante programa da TV, mas a opinião pública não gosta da piada e o massacra. sitdawndrama

Além da crise na carreira, o humorista ainda tem que administrar as suas relações cotidianas com a mãe incentivadora (Noemi Marinho), com a ex-mulher e jornalista (Chris Couto) e com o melhor amigo (Caco Ciocler).

Os coloridos figurinos são assinados por de David Diniz e Mônica Ventura (indicados ao 2º Prêmio Aplauso Brasil de Teatro pelo figurino de Vestido de Noiva) e destacam a personalidade de cada personagem.

O diretor Eric Lenate (indicado ao 2º Prêmio Aplauso Brasil de Teatro pela direção de Vestido de Noiva e vencedor na categoria Melhor Arquitetura Cênica) assina cenários e adereços. O cenário, com exibição de vídeos (vídeo-cenografia), ambienta a ação num grande set de TV e se transforma em outros ambientes, como a casa de Alves De.

Em entrevista. concedida ao Aplauso Brasil, Eric Lenate, fala sobre a peçaSit Down Drama, sobre liberdade de expressão, humor, a sua concepção para a encenação , o elenco e o legado que traz de suas experiências como ator e integrante do Centro de Pesquisa Teatral – CPT, coordenado pelo diretor Antunes Filho.

Aplauso Brasil – Na sua opinião, quais os limites da liberdade de expressão no Brasil. Você enquanto criador tem essa liberdade ou já vivenciou situações de censura?

Eric Lenate – Os limites da liberdade de expressão no Brasil são muito nebulosos. Vivemos em tempos obscuros, neomedievais. De tapinhas nas costas e sorrisinhos falsos de pessoas mal resolvidas escondendo uma sociopatia galopante. Hoje em dia – nestes novos tempos em que somos artífices e algozes de nossa própria imagem e arquitetos de um mundo self, de mentira –, tudo agride, mas nada choca. Ainda não fui censurado, mas serei muito em breve. Talvez até nesta resposta.

Aplauso Brasil – Você tem uma carreira pautada por trabalhos em que predomina, pelo menos aparentemente, o drama. E o humor, como ele está presente na sua vida e trabalho?

Eric Lenate – Não consigo mensurar e entender com linhas demarcatórias e nítidas a parcela que o humor ocupa em minha vida cotidiana e em meu trabalho. Este, sim, é o primeiro que realizo no sentido de se pretender humorístico. E digo “se pretender” porque é justamente com esta instabilidade que estamos lidando neste trabalho. O mote deste texto, um humorista criticando a si próprio e sendo criticado pelo entorno, nos deu abertura para investigar a matéria pura do humor, que é justamente a capacidade de mexer com os brios (com os líquidos, com os ‘humores’) do espectador, do público. Seja através do riso genuíno e escancarado, ou através do desconforto, ou até mesmo da comoção que pode conduzi-lo às lágrimas.  Neste sentido, o espectador que for assistir este trabalho não vai encontrar uma comédia que visa somente o riso, ou mesmo a gargalhada. Esperamos que ele encontre um vasto campo de questionamentos e instabilidades, aconteçam elas por meio do riso, ou não.

Aplauso Brasil – Neste sentido, quais os ingredientes para um humor de qualidade (que fuja do grosseiro)?

Eric Lenate – Consciência do tempo presente aliada a uma boa dose de inteligência e perspicácia.

Aplauso Brasil – Como entrou em contato com o texto?

Eric Lenate – Conheço Michelle desde os tempos em que frequentamos juntos o CPT – Centro de Pesquisa Teatral do SESC, coordenado por Antunes Filho. Desde lá admirava suas qualidades e sua agudez como dramaturga. Tentei dirigir lá um texto seu em caráter de experimento, mas o movimento incessante do CPT e do Antunes não permitiu. Conheço alguns textos que me foram apresentados por ela mesma, sempre na vontade e na intenção de realizar uma encenação, mas justamente este, Sit Down Drama, me chegou às mãos através do Ricardo Grasson, produtor idealizador e ator deste projeto, que me convidou para dirigi-lo.

Aplauso Brasil – Fale um pouco da sua concepção para o espetáculo?

Eric Lenate – O espetáculo é concebido dentro da ideia de um espaço em constante movimento. Um espaço de debate, questionamento e instabilidades. Para isso, optamos por ambientar a encenação num campo de desenho neutro, inspirado na ideia de um “estúdio de gravação”, com elementos que são próprios deste espaço e o evocam, e outros elementos que delineiam o fluxo narrativo e situacional da dramaturgia.

Aplauso Brasil – O que mais te chama atenção na peça Sit Down Drama, que fala de assuntos super atuais?

Eric Lenate – O que mais me chama a atenção, tanto neste texto, quanto em toda obra que conheço de Michelle, é seu “poder de fogo”. Sua capacidade de elaborar situações, embates e encontros entre personagens que beiram à aparente insanidade, em contraponto a uma consciência de nosso tempo presente e uma lucidez de propósitos absurdos. Seu discurso acontece sem rodeios, nem permissões. O desenho de sua narrativa é cristalino como a água e arredio como um cavalo selvagem. Michelle me desafia. Gosto de desafios.

Aplauso Brasil – Sit Down Drama traz 12 atores, um elenco grande para os dias de hoje. Como é dirigir esses talentos, de diversas escolas de interpretação?

Eric Lenate – Sim, não é tarefa nem um pouco fácil administrar, nos dias de hoje, um elenco formado por 12 pessoas. Artística, logística e financeiramente. Quanto mais uma equipe que totaliza 24 pessoas, entre técnicos criadores, produtores, assistentes de produção e atores. Minha tarefa tem sido orquestrá-los num discurso e numa formalização estética uníssonos sem, entretanto, anular suas particularidades e suas experiências diversas, que caracterizam justamente as qualidades que os tornaram o que são hoje, e os fizeram ter o respeito e a admiração que despertam no público e na imprensa especializada.

Aplauso Brasil – A sua experiência como ator ajuda na hora de dirigir? O que traz de legado do CPT nos seus trabalhos?

Eric Lenate – Tenho, em minha trajetória, o privilégio de ter trabalho e ainda continuar trabalhando como ator. Acredito que é fundamental para um diretor entender, ou pelo menos ter interesse em entender, o ofício do ator. Não acredito ser necessário que um diretor seja – ou tenha sido – também ator, mas que ele se interesse por entender o universo, as maravilhas, as necessidades e as dificuldades de ser ator é imprescindível. Um encenador de teatro que não se interessa pela direção dos atores que estão trabalhando com ele está, em minha opinião, perdendo uma grande oportunidade. Ser um encenador é uma coisa. Ser um diretor de atores é outra coisa. Ser um encenador com a capacidade de dirigir atores é uma terceira completamente diferente. Estou trilhando e exercitando minhas capacidades nesta terceira via. Trago como legado do CPT esta minha convicção.

Ficha Técnica:

Texto: Michelle Ferreira.

Direção: Eric Lenate.

Elenco: Danilo Grangheia, Caco Ciocler, Chris Couto, Noemi Marinho, Ricardo Grasson, Ando Camargo, Marcelo Villas Boas, Diego Dac, Luciana Azevedo, Fernanda Belinatti, Martina Gallarza e Veronica Ned.

Assistência de Direção e Direção de Palco: Diego Dac.

Cenografia e Adereços: Eric Lenate.

Figurinos e Adereços: David Diniz e Mônica Ventura.

Iluminação e Adereços:Fran Barros.

Trilha Sonora: L. P. Daniel.

Direção de Filmes Projeções: Laerte Késsimos.

Direção de Produção:Maria Betania Oliveira e Ricardo Grasson.

Produção Executiva: Martina Gallarza e Cicero de Andrade.

Assistentes de Produção: Rogério Tchusk e Renan Dias.

 

Serviço:

Sit Down Drama

Estreia dia 27 de junho, sexta-feira, às 21 horas, no Teatro Anchieta do SESC Consolação.  Rua Dr. Vila Nova, 245. Telefone: (11) 3234-3000. Capacidade – 280 lugares. Horário de funcionamento da Bilheteria – De segunda a sexta-feira das 12 às 22 horas, sábado das 10 às 21 horas e domingo e feriado das 16h30 às 18 horas (ingressos à venda em todas as unidades do SESC).  Aceitam-se cheque, cartões de crédito (Visa, Mastercard, Diners Club International) e débito (Visa Electron, Mastercard Electronic, Maestro e Redeshop). Informações sobre outras programações 0800-118220 ouwww.sescsp.org.br. Duração – 80 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 16 anos. Temporada – Sexta-feira e sábado às 21 horas e domingo às 18 horas. Ingressos –R$ 30,00 (inteira); R$ 15,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino); R$ 6,00 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes). Excepcionalmente nos dias 20, 25, 26 e 27 de julho o ator Caco Ciocler será substituído pelo diretor Eric Lenate. Até 10 de agosto.

 

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