Peça faz raio-X da tradicional família mineira

Maurício Mellone* (aplauso@gmail.com)

Xuxa Lopes e Pedro Henrique Moutinho em "Crônica da Casa Assassinada", direção de Gabriel Villela

Dib Carneiro Neto adaptou para o teatro a obra de Lúcio Cardoso a convite do diretor Gabriel Villela. O resultado é o sucesso da montagem que recebeu quatro indicações ao prêmio Shell no Rio e cumpre temporada no SESC Vila Mariana até 16 de outubro. Xuxa Lopes lidera um elenco de 10 atores

A cena inicial dá o tom do que se espera dos 90 minutos seguintes: na grande mesa da casa, mãe e filho fazem sexo, num misto de gozo, lágrima, paixão, dor, atração, repulsa, prazer e pecado. Impossível sair ileso da sala de espetáculo do SESC Vila Mariana depois de assistir à Crônica da Casa Assassinada, adaptação para o teatro de Dib Carneiro Neto do livro do mineiro Lúcio Cardoso, montagem do premiado diretor Gabriel Villela. O espetáculo é um olhar ácido e corrosivo para a tradicional família mineira, o que o aproxima muito da obra do sempre polêmico Nelson Rodrigues. Em diversos momentos da peça, lembrei-me de A Mulher Sem Pecado ou Álbum de Família, tal a radiografia que se faz dos Menezes, que poderia ser muito bem os Souza ou os Silva, pois a família brasileira é revisitada pelo autor:

“O livro do Lúcio Cardoso é um tratado psicológico, mais do que histórico, mas, claro, tem como pano de fundo a chamada história da vida privada brasileira, ao mostrar a crise financeira e moral de uma ex família abastada, em total decadência, no fim dos anos 1950, no interiorzão de Minas Gerais. Isso retrata um pouco da história de muitas famílias brasileiras”, explica Dib Carneiro Neto.

Com um elenco de 10 atores (Xuxa Lopes, Sergio Rufino, Flavio Tolezani, Pedro Henrique Moutinho, Rogério Romera, Maria do Carmo Soares, Letícia Teixeira, Cacá Toledo, Helio Souto Jr., Marco Furlan) e quatro indicações ao prêmio Shell do Rio — Gabriel Villela (direção e figurino), Marcio Vinicius (cenografia) e Domingos Quintiliano (iluminação), Crônica da Casa Assassinada é transposição para o palco de um livro composto de depoimentos, cartas e diários. De depoimento para a ação dramática, Dib e Villela optaram pela montagem em dois níveis: o da família aristocrática dentro da casa em decadência que se desestrutura com a chegada da libertária carioca Nina (vivida por Xuxa Lopes) e o outro nível, o da cidade que julga os atos dos Menezes e é representado pelo coro, um padre, um médico e um farmacêutico. O coro narra as ações da família.

As traições conjugais de Nina e da cunhada, o despudor do irmão homossexual e sua visão crítica da família, o ciúme entre irmãos e cunhados, o  sexo perverso e mal resolvido, o puritanismo religioso mineiro, enfim tudo vem à tona em cenas de uma plasticidade comovente. E num único cenário, na sala da casa decadente: cama, mesa e reza (a religião está arraigada na cultura mineira).

Além de interpretação marcante de Xuxa Lopes como Nina, Sergio Rufino se destaca na pele do homossexual libertário, que mesmo reprimido pelo irmão é o mais lúcido da família por apontar as feridas de todos. E a montagem torna-se impactante graças à força da iluminação de Domingos Quintiliano, o figurino de Villela (a cena do parto é simbólica devido ao efeito da grande toalha) e o cenário de Marcio Vinicius — o público fica magnetizado na cena do giro do crucifixo em tamanho natural, com um sensual e provocante Cristo!

Roteiro:
Crônica da Casa Assassinada
. Texto: Dib Carneiro Neto, adaptado do livro de Lúcio Cardoso. Direção: Gabriel Villela. Elenco: Xuxa Lopes, Sergio Rufino, Flavio Tolezani, Pedro Henrique Moutinho, Rogério Romera, Maria do Carmo Soares, Letícia Teixeira, Cacá Toledo, Helio Souto Jr., Marco Furlan. Cenários: Marcio Vinicius. Figurinos e sonoplastia: Gabriel Villela. Iluminação: Domingos Quintiliano. Fotografia: João Caldas. Direção de Produção: Claudio Fontana.
Serviço:
SESC Vila Mariana, Rua Pelotas, 141. Telefone – 5080-3000. Temporada: sextas e sábados, às 21 horas e domingos às 18 horas. Ingressos: R$ 24,00 inteira, R$ 12,0
0 usuário matriculado no SESC, +60 anos, professores da rede pública e estudantes com comprovante, R$6,00 trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes.  Horário de funcionamento da bilheteria – Terça a sexta das 9h às 21h30, aos sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30. Acesso para pessoas com deficiências. Classificação: 16 anos. Duração: 90 minutos.  Até 16 de outubro. 
Site – www.sescsp.org.br

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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