Peça inédita de autor português estreia mundialmente em São Paulo

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

"Nada de Dois", de Pedro Mexia e direção de Freed Mesquita

De sua estada em Portugal (Porto) no elenco de A Falecida Vapt-Vupt, dirigida por Antunes Filho, o ator Freed Mesquita (sobrinho-neto do crítico e ensaísta teatral, Décio de Almeida Prado) trouxe em sua bagagem vários textos de autores portugueses contemporâneos, dentre eles estava Nada de Dois, de Pedro Mexia, que estreia hoje no espaço Beta do SESC Consolação, dentro do projeto Primeiro Sinal.

Além de marcar o início da carreira de Freed como diretor teatral, a montagem de Nada de Dois marca a estreia mundial do texto do crítico de literatura do jornal Público e subdiretor da Cinemateca Portuguesa, até meados deste ano, Pedro Mexia.

Nada de Dois acompanha o percurso da relação romântica do casal Vasco e Joana, desde a noite em que se conheceram até o reencontro depois do divórcio. As seis cenas que compõem a peça são episódios da sua vida conjugal, muitas vezes conflituosa, que demonstram o caráter tragicômico da sua relação. Entretanto, apenas três episódios serão apresentados a cada noite, cabendo a Vasco e Joana relatarem o “resumo” do que aconteceu, de maneira mais intimista.

O diretor Freed Mesquita

A proposta da montagem segue uma vertente inusitada para falar de um tema corriqueiro: a tragicomédia das relações de um casal. O espaço cênico é dividido em duas arquibancadas com o palco-pista no centro. Será sugerido que cada gênero do respectivo espectador busque o lado do personagem que corresponde a seu sexo, embora não seja obrigatório seguir essa ordem. Os espectadores podem, inclusive, mudar de posição no curso da representação.

Em entrevista a Michel Fernandes, Freed Mesquita fala sobre Nada de Dois.
Michel Fernandes – Você conheceu Pedro Mexia onde?

O autor português Pedro Mexia

Freed Mesquita Sempre que viajo para outro país, gosto muito de conhecer a cultura deste país que não é o meu, vivenciar o dia-a-dia das cidades e estar junto com as pessoas, ver exposições, teatro, comprar livros, ver de perto a efervescência cultural. Quando fui com a peça A Falecida Vapt-Vupt a Portugal, comprei muitos livros e conheci pessoas e através destas pessoas e dos livros que escolhi, conheci a obra do Pedro Mexia, depois de muitas leituras busquei fazer contato com o autor para ele ceder os direitos da obra Nada de dois. Depois de algumas conversas e negociações, ele permitiu a montagem do texto no Brasil, texto esse que nunca foi montado nem em Portugal nem no Brasil, é inédito.

Michel Fernandes – Por que o interesse na dramaturgia dele?

Freed Mesquita Pedro Mexia apresenta em sua obra Nada de Dois um diálogo inteligente, ácido e envolvente, que me fascinou desde a primeira leitura. Estes adjetivos vieram de encontro com minha busca, que era conhecer novos dramaturgos que dialogassem com o drama do homem moderno. E isso Pedro Mexia faz com uma excelência impar, expondo em sua obra as limitações, os medos, as verdades e fragilidades deste homem moderno sem fazer uso de palavras pejorativas, sem baixarias e ao mesmo tempo tão cortantes, doloridas e cruéis. Pedro Mexia coloca toda a problemática do homem contemporâneo através da relação do casal Vasco e Joana que funcionam como um espelho de cada um de nós, onde o valor do amor e de uma relação a dois é, demasiadas vezes, sub-valorizado. Pedro Mexia mostra em sua obra a incomunicabilidade, as incertezas escondidas através de uma intelectualidade e da razão. Uma coisa muito bacana no texto é que ele não é categórico em nada, existe contradição em tudo, o autor não fecha nada, deixa as possibilidades abertas para que possamos ter mil interpretações, fugindo assim dos estereótipos.

Michel Fernandes – A estrutura formal que você escolheu veio a partir do quê?

Freed Mesquita A Cia. Ática é um grupo experimental e, como tal, gostamos de buscar novas estéticas para os nossos trabalhos. Nossa idéia foi realizar uma encenação que interagisse com o público de forma que ele não fosse mais um mero espectador a contemplar aquilo que se passa na sua frente, mas pudesse interferir diretamente na ação dos atores e no futuro das personagens. Quebramos a quarta parede e trouxemos o público para dentro da vida deste casal tornando-o testemunha ativa da história contada.

A disposição da sala será também diferente do habitual palco e platéia. Não haverá qualquer tipo de barreira ou fosso entre o público e os atores. Queremos que o público seja parte integrante do espaço cênico sem, com isso, criar algum tipo de constrangimento nele. Pensamos que esta proximidade poderá criar novos laços entre o teatro e o seu público e, ao mesmo tempo, criar uma assistência mais atenta e reflexiva sobre tudo o que se passa à sua volta. Outro aspecto interessante é o distanciamento que propomos no trabalho dos atores que de uma cena para outra dialogam com o público “enquanto atores” durante as trocas de cenário e figurinos, fragmentando os episódios da vida das personagens e discutindo com este publico, as experiências que a obra propõe. Queremos, assim, criar novos pontos de vista para o espectador. Fazer com que ele olhe não só para o que se passa na cena, mas também para si mesmo.

Michel Fernandes – Quais as principais qualidades você enxerga nos textos dele?

Freed Mesquita Seus diálogos ricos em referências, as possibilidades de leituras diferentes de uma mesma situação sem tornar óbvio e previsível os fechamentos de cada cena é com certeza a maior qualidade na dramaturgia de Pedro Mexia. Todas as cenas são completas, o que permite inclusive a encenação que criamos para o espetáculo.

Michel Fernandes – Como você utiliza os simbolos (na peça não há cenário propriamente dito, mas objetos significantes) na peça e como os mesmos dialogam com a dramaturgia?

Freed Mesquita O espaço será despojado de cenário. O público fará o enquadramento cênico da ação. Queremos utilizar apenas alguns adereços que interajam como símbolos da vida quotidiana, dando assim a maior importância à palavra, não comprometendo a atenção do público com o supérfluo. A encenação proposta é muito diversificada de uma cena para outra e até mesmo numa mesma cena. A obra demonstra uma incomunicabilidade, um isolamento a dois, conflitos individuais de pessoas que vivem juntas, paredes invisíveis que separam muitos casais da vida real, correntes que os mantêm presos numa relação em que ambos não estão felizes mesmo gostando muito um do outro, portas, labirintos e escuridões onde as pessoas se olham, mas não se vêem, terminam suas vidas juntas sem nunca se conhecerem de fato.

Michel Fernandes – Há duas dramaturgias? a da cena e a do texto?

Freed Mesquita Sim. Nosso objetivo na encenação foi sair do obvio, do comum, porém sem desfigurar ou distorcer os objetivos do espetáculo, objetivo que também é proposto na dramaturgia da obra. Podemos dizer que existem 06 dramaturgias que dialogam com o texto, considerando que o espetáculo é composto por 06 cenas intimistas e ambíguas, que podem ser apresentadas alternadas sem perder o entendimento da história.

Michel Fernandes – Esses anos com o Antunes Filho (com o CPT/ Grupo Macunaíma atuou em Senhora dos Afogados, A Falecida Vapt-Vupt e Policarpo Quaresma) bem como suas experiencias anteriores (por exemplo, com o grupo colombiano Teatro Experimental de Cali (TEC), dirigido por Enrique Buenaventurra (1924-2003) fizeram o ator Freed Mesquita. Como esses trabalhos estão circunscritos no Freed-diretor?

Freed Mesquita Acredito que fui uma pessoa privilegiada porque trabalhei com pessoas maravilhosas e que me auxiliaram tanto na minha formação pessoal como artística, devo isso a Enrique Buenaventura e principalmente ao Antunes, que foi de uma generosidade inenarrável. Antunes nao é um formador de atores como muitos dizem por ai, quem já teve a oportunidade de trabalhar e conviver dia-a-dia com o Antunes irá concordar que o Antunes planta nas pessoas a “semente artístisca” , se você apos sair do CPT regá-la e cuidar bem dela pode ter a certeza que desta semente nascerá um verdadeiro ARTISTA,  e é isso que estou fazendo, regando dia-a-dia essa semente. O espetáculo Nada de Dois – Seis Duelos Verbais é o primeiro fruto que irei colher desta árvore maravilhosa que  Antunes Filho me deu, nao sei qual vai ser o sabor do nectar desta fruta, mas tenho a certeza que ela tem uma genetica reconhecidamente muito boa.

"Nada de Dois", de Pedro Mexia e direção de Freed Mesquita

Michel Fernandes – Você continuará a atuar?

Freed Mesquita Eu acho que estou atuando mais do que nunca, enquanto dirijo os atores deste espetáculo, crio com eles os desenhos de cenas, apenas não estarei no palco, mas tudo que nele for feito é uma ext0enção da minha atuação. Acredito que a partir desta experiência de direção, não serei o mesmo ator, dirigir me amadureceu enquanto ator e tudo que fiz enquanto diretor só vem somar na minha capacidade atoral.

Michel Fernandes – Quais seus próximos projetos?

Freed Mesquita O dia de amanhã eu deixo para que o cósmico resolva por mim. Mas a ideia é seguir na pesquisa de diversos gêneros das artes cênicas e, sempre seguir regando, adubando e cuidando daquela famosa sementinha que um senhor chamado ANTUNES FILHO plantou em meu ser.

Ficha Técnica

Autor: Pedro Mexia

Direção: Freed Mesquita

Elenco: Messias Carvalho e Mirela Pizani

Musica: Rodrigo Basso

Luz:Freed Mesquita

Cenário e Figurino: Freed Mesquita e elenco

Estreia: Dia 4 de outubro de 2010. Segunda, às 21h.

Temporada: de 4 de outubro a 9 de novembro. Segundas e terças, às 21h. (exceto nos feriados de 12 de outubro e 2 de novembro). Duração: De 50 a 70 minutos (conforme sorteio de cenas).

Recomendação etária: 12 anos

Número de lugares: 60

Espaço Beta – 3º andar.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.